quarta-feira, 26 de outubro de 2022

A formação de igrejas nos campos transculturais

 


 

 

Introdução:

 

Como professor de Plantação e Revitalização de igrejas, um dos aspectos mais inquietantes para mim tem sido entender a lógica de boa parte dos missionários. A maioria não vai para o campo desejoso de plantar igrejas, eles querem pregar o evangelho e dar testemunho de Cristo, o que já é muito importante, mas não há preocupação com o futuro do trabalho, já que, se não houver plantação de igrejas, isto significa que todo seu esforço missionário acabou nele mesmo.

 

Será que minha preocupação é legitima ou apenas reflete minha ênfase ministerial em plantação de igrejas? Será que todo projeto missionário teria que levar em conta o estabelecimento da igreja ou apenas o testemunho já seria suficiente? Minhas inquietações encontram base bíblica ou são deficientes?

 

Alguns anos atrás estava plantando igrejas nos Estados Unidos, e num congresso ouvimos o testemunho de uma missionária que estava no Taiwan. Ela trouxe consigo dois discípulos, um homem e uma mulher, sendo que o homem já estava se preparando para ser encaminhado ao ministério. Ela estava naquele país há 10 anos, e já tinha cinco convertidos, mas lembro que quando ouvi seu relatório fiquei me imaginando trabalhando num campo por 10 anos e tendo apenas 5 discípulos, mas depois refletindo melhor, compreendi que ela estava no caminho certo: Fazer discípulos locais, deixar liderança indígena estabelecida, e implantar a igreja. Este projeto, tem todos os componentes que julgo essencial para que seja definitivamente implantado naquela região.

 

Um olhar nas Escrituras

 

Quando estudamos a visão missionaria dos apóstolos no livro de Atos, não temos duvida alguma que o grande projeto deles era a implantação de uma igreja local com lideres daquela cidade sendo treinados e ordenados. Eram os presbíteros. Em todos os lugares onde os apóstolos foram, em qualquer uma de sus viagens missionárias, eles estavam atentos a esta estrutura básica:

 

§  Evangelizar

 

§  Formar discípulos

 

§  Estabelecer a Igreja

 

§  Treinar lideres locais

 

Depois, naturalmente, retornavam para as cidades para ver como as coisas estavam, supervisionar a obra, corrigir distorções teológicas e encorajar o coração dos irmãos.

 

Quando Paulo coloca Tito em Creta, sua ordem é clara: “Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em ordem as coisas restantes e constituísses presbíteros” (Tt 1.4). O estabelecimento de uma igreja numa cultura diferente pode sofrer vários percalços, principalmente porque há aspectos culturais que não são facilmente perceptíveis na superfície e nos primeiros contatos, mas depois, como vimos anteriormente, podem brotar trazendo aspectos que geram sincretismo e confusão na interpretação e aplicação do evangelho.

 

A Igreja Primitiva tinha em mente o estabelecimento de novas igrejas no projeto missionário. A obra missionária consistia basicamente nisto.

 

Quando Jesus dá a Grande Comissão em Mt 28.18-20: Toda autoridade me foi dada nos céus e na terra, portanto, ide (indo), fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas. E eis que estarei convosco até a consumação dos séculos”. Qual é a estrutura da obra missionária? Como Jesus a fundamenta?

 

A AUTORIDADE DE CRISTO

(Fundamento)

 

INDO

(processo)

 

FAZEI DISCIPULOS

(Método)

 

BATISMO

(selo)

 

ENSINANDO

(Educação continuada)

 

ESTAREI CONVOSCO

(promessa de sua presença).

 

Podemos fazer discípulos sem uma inserção comunitária? Parece-nos que não, porque o batismo implicava num compromisso comunitário, de ser de Cristo e fazer parte de um povo. Era necessário uma identidade comunitária. Da mesma forma, não é possível pensar numa comunidade ensinando continuamente, se não existe uma igreja, embora não institucional, mas orgânica, não há como cuidar, nutrir, apoiar. A igreja é fundamental neste processo.

 

Então, podemos afirmar que, no núcleo central da Grande Comissão, está implícita a ideia de uma igreja sendo estabelecida. Por isto, esta é a estratégia da Igreja Apostólica: Plantar Igrejas em todas as cidades.

 

Dificuldade na formação da igreja: Da transição do anúncio kerigmático para a experiência comunitária.

 

Sabemos que entre este processo inicial de ser testemunha, para o projeto posterior da implantação da igreja há um salto gigantesco. Anunciar e proclamar Jesus como Salvador e Senhor já é uma grande tarefa, mas daí para as pessoas entenderem a necessidade de serem um corpo visível, tangível, local e histórico, há um grande desafio. Várias razões corroboram para isto:

 

A.    Uma latente suspeita missionária – Infelizmente, há na mente do missionário, uma questão: Será que podemos confiar na liderança local? Eles realmente entenderam o suficiente da mensagem para assumir o projeto?

 

Isto se torna ainda mais complexo quando o missionário vem de uma cultura que se julga superior àquela que ouve a mensagem. Estas suspeitas são claramente perceptíveis na história das missões. Os missionários levam dinheiro, tecnologia, recursos, e com todo este aparato, podem subliminarmente pensar que estão lidando com uma cultura inferior.

 

Então, os missionários se tornam inseguros em deixar o campo ser conduzido pelos membros que são novos na fé e encontram dificuldade em permitir que o campo tenha uma nova liderança, e confiar na graça de Deus que ama sua igreja e vai edificá-la.

 

B.    Falta de intencionalidade dos missionários em buscar a organização das igrejas locais com lideranças locais.

 

Eventualmente missionários falham, porque não entendem que este é o projeto. Eles não estão plantando igrejas para si mesmos, nem para suas denominações de origem. Perder o controle é desafiador. É como deixar o filho sair de casa para estudar, trabalhar ou casar: ficamos sempre nos indagando se eles realmente terão condições de levar a vida sem nossa controle. Não entendemos que eles realmente cresceram.

 

C.    A dependência que os campos criam dos missionários.

 

Quando chega a hora do missionário partir, e deixar os trabalhos por conta dos lideres locais, surge muita insegurança. Será que vão conseguir manter a igreja teológica e administrativamente firme? Terão os recursos necessários para sua manutenção? Eventualmente igrejas fruto do trabalho missionário transcultural podem se tornar viciosamente dependentes dos recursos da missão.

 

Isto aconteceu nos campos da Missão Presbiteriana Oeste (USA) na região do Centro Oeste do Brasil. As igrejas, que recebiam todo dinheiro para construção e manutenção dos obreiros na região, com a saída dos missionários, não aprenderam a contribuir fielmente, e muitas tiveram muitas lutas para sua manutenção. Eventualmente até venderam propriedades deixadas pela missão para honrar seus desafios financeiros.

 

Houve erro dos missionários? Eventualmente sim. Mas o problema é que, quando o dinheiro chega fácil, ninguém se preocupa com sua manutenção. Por esta razão é sempre difícil transformar um projeto social em um projeto de plantação de igrejas, porque as pessoas que estão ligadas ao projeto social, na maioria possui uma dependência dos recursos externos. Estão ali para receber, e não para doar. Existem uma mentalidade de dependência.

 

Quando os missionários presbiterianos chegaram eles tinham quatro pilares para o estabelecimento de um trabalho:

a.     Um templo

b.     Um casa pastoral

c.     Um evangelista em cada campo

d.     Uma escola anexa ao templo.

 

Certamente fomos muito abençoados pela visão, sensibilidade e generosidade destes irmãos, a crítica não tem a ver com o que fizeram, mas apenas para demonstrar quão complexo é esta dependência.

 

Considerações:

 

Tentando alinhar alguns princípios relacionados à plantação de igrejas na missão transcultural é importante ter em mente esta linha de ação.

 

Primeiro, todo projeto missionário deveria ter como alvo a plantação de igrejas.

 

Isto implica em três alvos:

§  Estabelecimento de uma comunidade autóctone, local

§  Formação de liderança local

§  Afastamento gradual e intencional do missionário no campo.

 

Segundo, só podemos afirmar que um projeto transcultural foi estabelecido, quando uma igreja for estabelecida, com liderança local.

 

Se isto não acontecer, quando o missionário sair do campo, a obra acaba. O projeto inicia e termina nele.

 

Problemas:

ü  Muitos missionários não tem foco em plantação de igrejas e nem em treinamento de lideres locais para este objetivo.

 

ü  Muitos missionários não gostam de igrejas locais. Eventualmente são até críticos das igrejas que os sustentam.

 

ü  Muitos missionários vão para o campo, sem terem dons pastorais. Alguns até afirmam orgulhosamente: “sou missionário mas não sou pastor”. Costumo afirmar que “você pode não ser missionário e ser pastor (não deveria, mas infelizmente acontece), mas é impossível ser missionário sem coração profundamente pastoral”.

 

ü  Muitos missionários, embora estejam ligados financeiramente com suas igrejas, não estão ligados emocionalmente e com elas. Conheço missionários que, com o passar do tempo, foram excluídos do rol de membros. Eram missionários sem serem membros de uma igreja local. Não me causaria espanto se soubesse que muitos encontram-se nesta situação.

 

Algum tempo atrás um missionário muito querido me pediu que escrevesse uma carta de apresentação dele como membro da igreja. Eu disse que não poderia fazer isto porque ele não era membro de nossa igreja. E ele afirmou que, ao sair para o campo, possuía uma relação muito positiva com a liderança local e com seu pastor, mas que a igreja havia passado por graves e sérios conflitos, e que ele não possuía qualquer relação atualmente, nem afetiva, nem financeira, nem institucional com sua igreja. Portanto, era um missionário que não era membro de uma igreja

 

Terceiro, não há missão no Novo Testamento, sem uma compreensão clara de plantação de igrejas

 

Para que isto aconteça, há três elementos indispensáveis:

 

a.     Na formação dos missionários precisamos de uma boa teologia bíblica para entender que o cerne da missão é plantação de igrejas. A visão teológica determina a prática missionária.

 

b.     Foco – O missionário, ao sair para o campo, deve compreender seu objetivo e alvo: Estabelecer uma igreja no campo para o qual ele se dirige.

 

c.     Intencionalidade – Nada é mais importante, na sua visão e da igreja que envia, e para o missionário que se dispõe a ir, que a compreensão de que o alvo será a plantação de igrejas

 

Alguns anos atrás, recebemos um relatório de um missionário, por quem tenho grande apreço, que estava se dirigindo para um campo e nem sequer mencionava a ideia de plantar igrejas. Li preocupado o seu projeto, nós somos parceiros dele na obra missionária, e expressei minha percepção à sua agência missionária. O Secretário Executivo me disse que ele já havia notado isto e que iria ajudá-lo a refazer seu projeto. O resultado não poderia ser melhor. Ele não apenas implantou a igreja naquele país, como já está surgindo uma segunda igreja pelo seu projeto missionário.

 

Quarto, Jesus está comprometido com sua igreja.

 

“Nada mais é mais importante na missão e evangelização que plantação de igrejas: Nem cruzadas, programas evangelísticos, ministérios para eclesiásticos ou mega-igrejas terão o mesmo impacto”(Tim Keller)

 

 Jesus profeticamente se comprometeu com sua igreja ao afirmar: “Eu edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. (Mt 16.18). Desta sua afirmação três conceitos são fundamentais:

 

A.    A Igreja é de Cristo – “Eu edificarei a minha igreja”. Muitas pessoas esquecem disto ou agem como se a igreja fosse deles. João Batista entendeu muito bem este princípio ao afirmar: “Quem tem a noiva é o noivo” (Jo 3.29).  Precisamos resgatar a compreensão de que a igreja é de Cristo e ele está empenhado na sua edificação.

 

B.     Quem edifica a igreja é Cristo – “Eu edificarei a minha igreja”. Muitas vezes pensamos que somos nós quem fazemos, mas a obra d\é de Cristo. “Eu plantei, Apolo regou, mas o crescimento veio de Deus” (1 Co 3.6). Igreja não é projeto humano.

 

C.    Apenas a igreja tem o poder de enfrentar as trevas – “As portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Satanás não pode vencer a igreja porque quem a protege é Jesus.

 

D.    O projeto da igreja tem uma dimensão transcendental – “Para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja agora conhecida dos principados e potestades, nas regiões celestiais” (Ef 3.10). A igreja está no centro do propósito redentivo de Deus para a humanidade. Seu impacto não é apenas local, mas cósmico.

 

E.     Mais que “um projeto missionário local”,  precisamos ter projetos de plantação de igrejas transculturais ao redor do mundo. A essência da missão transcultural é o estabelecimento de novas igrejas que proclamem com fidelidade a salvação que está em Cristo Jesus.

 

Conclusão

 

A Igreja de Cristo é chamada para ser cooperadora na obra evangelística e missionária no mundo. É muito comum as pessoas afirmarem que “a missão da igreja é fazer missão”, e esta frase pode até ser considerada verdadeira, a não ser por duas razoes:

 

A obra missionária não é o objetivo final da igreja. Quando se usa o lema acima, parece que a obra missionaria é um fim em si mesma, mas isto não é toda verdade.

 

Então, qual é a missão da igreja? A missão da igreja é glorificar a Deus. Esta é sua razão de existir. Ao fazer missão ela dá glória a Deus. Negar sua missão é deixar de proclamar a glória de Deus. O Salmo 67 diz: “Seja Deus gracioso para conosco e nos abençoe. Para que se conheça na terra o nome do Senhor”. O objetivo é fazer missão, para glorificar a Deus. Missão não é o fim, mas o meio.

 

Quando plantamos igreja, embora entendamos que igrejas locais não abarcam toda a dimensão da glória de Deus, ainda assim, igrejas bíblicas evidenciam a glória de Deus na terra. Por isto plantamos igrejas, e trabalhamos para que, em cada rincão mais distante do nosso planeta, igrejas sejam estabelecidas, e o nome de Deus seja glorificado.

 

 

 

 

 

terça-feira, 25 de outubro de 2022

A resistência à Evangelização.




 

 

 

Introdução

 

Em todo lugar, em todo tempo, nas mais variadas situações históricas e culturais sempre houve resistência à obra da evangelização. A resistência se dá por fatores sociais, religiosos e até políticas. Não é sem razão que Jesus disse que daria poder aos seus discípulos para serem seus mártires, até os confins do mundo (At 1.8). A palavra “testemunha”, vem do grego “martirion” Portanto, toda vez que pensarmos no avanço do evangelho precisamos considerar a oposição e resistência como um processo real e nos preparar para o enfrentamento.

 

A revista Veja, em 19 Jan 2019 trouxe uma reportagem  sobre o assunto: “Morrer ou ser perseguido por causa da fé tem feito parte dos riscos enfrentados por 245 milhões de  cristãos mundo afora. Em seu levantamento de 2019, a organização não governamental Portas Abertas registrou 4.305 casos de pessoas mortas por serem cristãs, o que representa aumento de 40,4% na comparação com a pesquisa anterior.”[1]

 

Num documento de Lausanne (1974), lemos: “Terrorismo e fundamentalismo religioso representam imensos desafios para a propagação do evangelho. A perseguição aos cristãos resulta na morte de mais de 165 mil crentes todo ano (500 por dia). Embora muitos cristãos sejam fiéis ao chamado do seu Senhor, diante de tal perseguição, outros, com medo, recuam.”[2]

 

Podemos enumerar, pelo menos quatro fatores de oposição à obra da evangelização:

 

1.     Oposição satânica

 

Tanto o Novo Testamento, como os relatos missionários, mencionam a ação de Satanás contra o povo de Deus e o avanço da obra evangelística.  Por esta razão, quando se fala de envio de obreiros para a obra, a questão da oposição maligna sempre deve ser seriamente considerada.

 

Satanás conspira contra os planos missionários. O apóstolo Paulo tinha uma compreensão muito clara da oposição satânica: “Ora, nós, irmãos, orfanados, por breve tempo, de vossa presença, não, porém, do coração, com tanto mais empenho diligenciamos, com grande desejo, ir ver-vos pessoalmente. Por isso, quisemos ir até vós (pelo menos eu, Paulo, não somente uma vez, mas duas); contudo, Satanás nos barrou o caminho.” (1 Ts 2.17). Na narrativa de Paulo, a obra missionária não pode avançar, porque Satanás conspirava contra os projetos da igreja. Esta tem sido a realidade de toda a obra missionária e Satanás deseja criar obstáculos no avanço da obra evangelizadora.

 

Lidório faz uma interessante análise exegética do termo “dominadores deste mundo tenebroso” mencionado em Ef 6.12. Esta expressão vem do grego “kosmokratoras”, que se referia a um grupo de estrategistas helênicos que se reuniam de tempos de guerra com o objetivo de traçar planos de sabotagem contra o exército inimigo, e “indica um grupo de seres malignos, os quais, cientes da situação do inimigo (no caso, o Reino de Deus), traçam planos de sabotagem contra a igreja. Funcionalmente, kosmokratoras designa um grupo maligno organizado contra a expansão do evangelho, e não de um desatinado grupo de demônios voando aleatoriamente para todos os lados em atitudes impensadas[3]”.

 

2.     A oposição de sistemas políticos

 

Quando a Bíblia fala que “nossa luta não é contra carne e sangue, e sim contra os principados e potestades” (Ef 6.12), aponta para dois tipos de oposição: Um espiritual (principados), e outro histórico, político (potestades). Na obra da evangelização veremos como isto é real. Satanás e os poderes estão mancomunados para fazer oposição contra todo avanço do reino de Deus.

 

Desta forma, a obra evangelística não sofre apenas a ação do diabo, mas oposição dos poderes temporais. Isto se torna claro no livro de Apocalipse.

 

No Capítulo 17-18, há uma menção da grande meretriz, que num sentido estrito se refere a Roma, seu poder e devassidão, e sua cumplicidade com o mal, mas num sentido amplo, se refere aos poderes políticos em todo tempo, sempre se opondo ao avanço do reino de Cristo. Roma simboliza todo o poder político que domina o mundo, todas as potências mundiais, de todo o tempo, com sua prostituição, seus pactos com a besta, e sua oposição ao Cordeiro. “os reis da terra se prostituíram com ela e com o vinho da sua devassidão” (Ap 18.2).

 

“O texto descreve como os poderes políticos e terrenos estão profundamente mesclados com a filosofia da besta e do anticristo (Ap 17.13,17). Por seguirem a besta e concentrarem todas as suas energias na promoção deste poder maligno, oferecem-lhe o poder e a autoridade (Ap 17.13) e doam-lhe o reino que possuem (17.17), são por sua natureza intrínseca, comprometidas com a besta e opostas ao Cordeiro. Por isto “pelejarão contra o Cordeiro”. (Ap 17.14). Os Poderes políticos não são descritos em apocalipse como poderes “neutros”, mas estruturas sistêmicas que promovem a besta. Babilônia está muito associada com a besta, na realidade o texto descreve a cidade  como que ‘montada numa besta”. (Ap 17.3) Isto é, sua estrutura está fundada na filosofia e no projeto da besta. Roma, com seus poderes constituídos, com os dez chifres, representa o movimento perseguidor da igreja de Cristo durante a história, personificada em sucessivos impérios mundiais.[4]”

 

O texto demonstra que os dez chifres, menção aos poderes políticos e históricos, recebem a autoridade da besta. “Os dez chifres que viste são dez reis, os quais ainda não receberam reino, mas recebem autoridade como reis, com a besta, durante uma hora” (Ap 17.12). Portanto, trata-se de uma investidura maligna. A besta energiza os poderes temporais, os reis. Em contrapartida, os reis que recebem autoridade da besta, tem uma clara missão: “Tem estes um só pensamento e oferecem à besta o poder e a autoridade que possuem” (Ap 17.13). Desta forma, podemos observar um pacto de reciprocidade entre Satanás e as forças históricas. O diabo e os reis são aliados, pactuados. Seu propósito é lutar contra o Cordeiro. “Pelejarão eles contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, pois é Senhor dos senhores, e o Rei dos reis; vencerão também os chamados eleitos e fieis que se acham com ele” (Ap 17.14).

 

“É fato que em muitas partes do mundo, os missionários cristãos se deparam face a face com sistemas demoníacos que por milhares de anos tem sido uma parte integral do reino de Satanás. Como um soldado da cruz, ele é uma ameaça ao reino do mal. A batalha em última instância, não é com humanismo, nacionalismo, comunismo ou qualquer sistema terreno, mas com Satanás em si mesmo. Por detrás de sistemas religiosos, políticos e econômicos, encontram-se as estruturas do mundo que trabalham pelo príncipe da potestade do ar, que deseja tanto quanto possível, cumprir seus propósitos[5]”.

 

Linthicum chama atenção para o fato de que o mal não é apenas individual, mas sistêmico. As pessoas pecam individualmente, mas muitas vezes o mal revela uma dimensão corporativa. “O mal de uma cidade é muito maior do que a soma do pecado de seus indivíduos. Os próprios sistemas de uma cidade podem se tornar corruptos, pegajosos, asfixiantes e exploradores. O mal na cidade pode ser sistêmico e corporativo (...) os sistemas que ordenam a vida de uma cidade são os econômico, político e religioso (...) todos as demais instituições (educação, saúde, serviços sociais) são sub sistemas[6]”. 

 

3.     Oposição das falsas religiões

 

Em terceiro lugar podemos falar da oposição das estruturas religiosas. Trata-se de uma luta contra sistemas religiosos, superstições, crendices, idolatria. Muitas vezes o diabo usará as forças religiosas para se opor ao avanço da pregação.

 

Quando se estuda a Janela 10/40, é fácil perceber como as forças religiosas criam uma barreira contra o avanço da obra de evangelização no mundo. “A Janela 10/40 é uma região do globo terrestre considerada, por missiólogos, antropólogos e estrategistas cristãos, o centro do mundo, onde vive um expressivo numero de povos não alcançados e onde, também, estão concentrados nossos maiores desafios evangelísticos, essa faixa de terra se estende do Oeste da África, até o leste da Ásia, entre os paralelos 10o. E 40o. Acima da linha do equador. Toda essa região é formada pelos países do mundo muçulmano, hindu, budista e comunista, além de outras religiões animistas”[7].

 

É bom considerar que mesmo religiões aparentemente “pacíficas” como o budismo, são ferrenhas opositoras da fé cristã, e em alguns países budistas o cristianismo é suprimido não só pelas autoridades locais, mas também pelos monges.

 

Esta barreira geográfica, é assim formada pela presença maciça de grandes religiões pagãs. As barreiras são quase intransponíveis, desde regimes teocráticos que perseguem e impedem outras expressões religiosas, até perseguições de grupos radicais religiosos, que perseguem, torturam e matam os cristãos.

 

As falsas religiões geram superstições e mantém as pessoas dominadas pelo medo, por falsas compreensões de realidades espirituais, e se opõem radicalmente ao avanço do evangelho. Paulo e os apóstolos sofreram muito com as religiões pagãs quando faziam suas viagens missionárias, e as coisas não são diferentes hoje em dia.

 

4.     Oposição de filosofias humanistas

 

O apóstolo Paulo afirma: “Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o qual é a imagem de Deus.” (2 Co 4.3,4).

 

O homem sem Deus, adota uma visão secular de mundo, trazendo um modo de vida e de pensamento sem referência a Deus. O secularismo nega as realidades transcendentes, a esfera espiritual e se inclina para o profano desprezando o conceito de sagrado e levando o homem a um estilo de vida que abandona qualquer crença em Deus. É uma forma de ver o mundo onde se reconhece apenas o aqui e o agora.

 

Esta propensão secular defende que não há algo que possamos chamar de mundo espiritual, e isto faz surgir as ideologias, fruto da mente humana, que afirmam que Deus não é relevante para a discussão ou que a ideia de Deus torna-se destrutiva para a sociedade.

 

O humanismo coloca o homem no centro. É por sua natureza, antropocêntrico e age no campo das ideias, filosofia e a educação, produzindo o relativismo moral e a eliminação, nos livros didáticos, de qualquer referência ao conceito de Deus. Tal pensamento tem dominado a cultura ocidental e se transformado em ateísmo e materialismo, cujo maior bem é o prazer material.

 

A oposição à evangelização é tão aberta em nossos dias, que torna-se quase um crime a pregação do evangelho em campus universitários. Mesmo em países considerados cristãos na sua maioria. A fé cristã procura ser sistematicamente desacreditada pelas diversas correntes filosóficas. Há toda uma estrutura de pensamento planejada para transformar a fé cristã em algo ridículo, sem valor e sentido. O desafio apologético torna-se um dos maiores desafios da fé cristã nestes últimos séculos, desde a virada do Século XIX, com o surgimento de várias correntes anti cristãs, como o Darwinismo, existencialismo, a psicanálise e o marxismo. Todo sistema intelectual organizado para conspirar contra a fé cristã.

 

Em busca de uma estratégia

 

Pensando em toda resistência que a fé cristã enfrenta no mundo inteiro, podemos sugerir algumas pistas para responder a tais oposições:

 

A.    Se você está envolvido na obra de evangelização, seja na sua cidade, na sua família, na igreja local ou em campos transculturais, espere oposição.

 

Eventualmente entramos na obra evangelística achando que se trata de um turismo missionário, entretenimento ou uma ação a mais no programa da igreja, e nos esquecemos quanta oposição espiritual poderemos enfrentar.

 

B.    Se você está querendo se envolver na obra de evangelização de sua cidade, no plantio de igrejas ou em missões transculturais, ore!

 

Antes de entrarmos num campo de batalha, precisamos nos preparar para a guerra.

 

C.    Nunca baixe a guarda! A oposição virá de todos os lados.

 

Por todas as igrejas em que pastoreei, sempre investimos em missões e plantação de igrejas, em algumas, o investimento era maior que outras, mas sempre compreendemos que a Palavra de Deus nos ordena a ter olhos para o mundo. O princípio “Aja localmente, pense globalmente”, está muito claro no evangelho. Um fato que sempre observamos é como os missionários sofrem ataques de todos os tipos.

 

Podemos falar de quatro áreas em tais ataques são perceptíveis:

 

i.               Ataques físicos – Não facilmente observamos missionários sofrendo de várias enfermidades físicas.

 

“A Missão Evangélica Aliança chegou na Ilha de Java em1952, com dois missionários, Erickson e Tritt, numa viagem exploratória no desconhecido e pantanoso território. Um dia, com nenhuma razão aparente, estes dois homens foram brutalmente assinados por pessoas nativas da comunidade. Quem podeafirmar que isto não se deu por causa de influência maligna?[8] “

 

ii.              Ataques na família – Não raramente vemos famílias missionárias enfrentando grandes pressões. Muitos missionários tiveram que retornar de seu campo por causa de enfermidades e problemas com esposa ou filhos.

 

Um dos gigantes da obra missionária no Brasil foi Frederick Orr, irlandês, que veio para o Brasil e se tornou missionário no Estado Amazonas, plantando a igreja Batista de Lábrea. Sua primeira cerimônia religiosa foi o sepultamento de sua esposa que faleceu de complicações gastro intestinais na viagem. Posteriormente ele se casou com uma brasileira, com quem teve dois filhos. Sua missão começou com dor e pranto. Uma de suas frases conhecidas é a seguinte: “Hoje em dia há muitos que se reúnem para pedir a Deus que tire a tribulação; a igreja primitiva pediu força e intrepidez para pregar a Palavra de Deus”.

 

Da mesma forma, Ashbel Green Simonton, fundador do Presbiteriano no Brasil, aportou no Rio de Janeiro em 12 de Agosto de 1859. Pouco depois de organizar a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, em 1862, retornou aos EUA e se casou com Helen Murdoch em Baltimore, regressando ao brasil em julho de 1863. No fim do ano seguinte, Helen faleceu nove dias após o nascimento de sua filhinha, que recebe o seu nome. No final de 1867, sentindo-se adoentado, o pioneiro missionário foi pra São Paulo onde sua irmã e seu cunhada criavam a pequena Helen, seu estado agravou-se e ele faleceu no dia 9 de dezembro, com febre biliosa, 8 anos depois do inicio da obra missionária.

 

iii.            Ataques emocionais – Da mesma forma, missionários não raramente experimentam grandes opressões espirituais, angústias e depressão.

 

“Depressão é outro favorito método de ataque. Desencorajamento é a mais letal arma do arsenal do diabo. Gigantes espirituais, imunes a todas outras formas de ataque, tem sucumbido à depressão[9]”.

 

J. O Frazer, missionário no Sudeste da China, depois de cinco anos sem nenhuma conversão, faz uma descrição sobre sua situação emocional:

 

“Uma estranha incerteza começou a fazer sombra na sua vida interior. Toda sua fé e regozijo tornou-se irreal, e mesmo suas orações pareciam zombar dele e estavam destinadas a não fazer nenhuma diferença... seus fundamentos foram profundamente abalados naqueles dias e noites de conflitos, até que Frazer entendeu que por detrás de tudo aquilo estavam os “poderes das trevas”, procurando dominá-lo. Ele havia ousado invadir o reino de Satanás por muitos anos e agora ele estava sendo atacado, e era uma guerra que procurava matá-lo, espiritualmente[10]”.

 

iv.            Ataques espirituais – Paulo relata a sua luta implacável com a oposição. “Porque não queremos, irmãos, que ignoreis a natureza da tribulação que nos sobreveio na Ásia, porquanto foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida.” (2 Co 1.8).

 

Evangelistas são pressas fáceis dos cinco desastrosos Ds: Desânimo, displicência, desencorajamento, descrença, depressão.

 

D.   Nota de Esperança!

 

Lendo todas estas coisas, é fácil nos desanimarmos e até mesmo nos desesperarmos. Não gostaria de desencorajar nenhum leitor a ficar assustado com tais relatos.

 

A resistência à evangelização pode nos levar a desanimar, quando enfrentamos situações ameaçadoras, mas a promessa deve nos levar a confiar, regozijando na esperança da colheita: “Quem sai andando e chorando enquanto semeia, voltará com júbilo trazendo seus feixes” (Sl 126.4) e da grande promessa da obra de Deus alcançando e abençoando todas as nações. “para que se conheça na terra o seu caminho, e em todas as nações a sua salvação.” (Sl 67.2)

 

Ouça estes testemunhos:

“Presenciamos um tempo de grandes transformações e grandes colheitas. Precisamos atentar para a ordem de Cristo: “Erguei os olhos e vede os campos, pois, já branquejam para a ceifa”... A China, país mais populoso do mundo, continua comunista. Porque a Cortina de Bambu ainda não se abriu? Não devemos ver a mão do Altíssimo apenas quando ele sinaliza com feitos políticos, não há sinal mais glorioso que o avanço da igreja chinesa; é maior que em muitos países livres, mesmo que custe caro o testemunho dos fieis. Em 1949, quando Mao Tsé-tung tornou o país comunista, havia 1.8 milhão de cristãos. Em 1992, o Bureau de Estatística do Estado da China estimou, confidencialmente, 63 milhões de cristãos. Nosso rei tem o domínio dos tempos e dos modos. Para ele não há portas fechadas![11]“

 

“Prevê-se que o continente africano, que há 200 anos era considerado um cemitério de missionários, será o primeiro continente a contabilizar maioria cristã em sua população. Em 1900, os cristãos africanos eram 8 milhões; em 1990 esse numero subiu para 275 milhões (...) A América Latina foi marcada por um notável crescimento da Igreja no século XX. Em 1980, o número de evangélicos era de 21 milhões, passando para 46 milhões em 1990. O número dobrou em apenas uma década! O Brasil, em 1960, tinha 4 milhões de evangélicos; em 1990, eram 26 milhões, é a terceira maior comunidade evangélica do mundo, a que mais envia missionários e a que possui maior número de centros de treinamento e agências missionárias em toda América Latina[12].”

 

Como podemos ver, apesar de toda resistência ao evangelho, a oposição nunca impediu o avanço da obra do Senhor. Afinal, Jesus está comprometido com sua igreja, que reúne o povo que ele mesmo comprou com seu sangue: “Eu edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela!” (Mt 16.18)

 

Assim compreendendo, continuemos firmes, anunciando ousadamente a salvação, porque quem fez a promessa é fiel. A Igreja segue vitoriosa. Nenhum dos planos de Deus podem ser frustrados. Aleluia!

 

Para fixar:

1.     Quais são os 4 fatores mais presentes na oposição à obra da evangelização?

 

2.     Quais são os ataques mais perceptíveis contra aqueles que se dispõem a realizar a obra evangelizadora?

 

 

 

 

 



[1] https://veja.abril.com.br/mundo/morte-de-cristaos-aumenta-40-em-2018-diz-ong-portas-abertas/

[2] https://www.lausanne.org/pt-br/recursos-multimidia-pt-br/povos-perdidos-um-quarto-do-mundo-sem-ajuda-principalmente-budistas-hindus-e-muculmanos

[3] Lidório, Ronaldo – A armadura de César e a panoplian de Deus. In Perspectivas no Movimento cristão mundial, São Paulo, Vida Nova, 2009, p. 208.

[4] Vieira, Samuel - Tudo sob Controle. São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2000, p. 166

[5] Kane, J. Herbert. Christian Missions in Biblical Perspective, Grand Rapids, MI, Baker Book House, 1976 p 274

[6] . Linthicum, Robert – Cidade de Deus & Cidade de Satanás, Belo Horizonte, Missão Editora, 1995, p.53,54

[7] Bush, Luis. A Janela 10/40, In Perspectivas no Movimento cristão mundial, São Paulo, Vida Nova, 2009, p. 542.

 

[8] Kane, op. citado, 1976 p 275

[9] Kane, op. citado, 1976 p 275

 

[10] Kane, op. citado, 1976 p 275

[11] Bezerra, Durvalina., A missão de interceder, In Perspectivas no Movimento cristão mundial, São Paulo, Vida Nova, 2009, p. 195.

 

[12] [12] Bezerra, Durvalina., A missão de interceder, In Perspectivas no Movimento cristão mundial, São Paulo, Vida Nova, 2009, p. 196.