terça-feira, 18 de dezembro de 2018

3. O Desafio hermenêutico








3.
O Desafio hermenêutico
Traduzindo o evangelho para esta geração.



Introdução: 



O termo “hermenêutica”vem do grego hermeneuein que significa “declarar”, “anunciar”, “interpretar” ou “traduzir”. Trata-se de tornar compreensível ou entender um enunciado obscuro, de difícil compreensão teológica, literária ou histórica. Hermenêutica  é a ciência da interpretação. Todo ser humano diariamente é levado a uma situação na qual precisa filtrar o que ouve e vê, e julgar a partir da sua intuição, sua formação intelectual e espiritual, e sem sequer pararmos para elaborar uma conceituação mais profunda sobre o tema, constantemente fazemos hermenêutica da vida.

A igreja possui dois desafios nesta área:

A.
O Desafio da hermenêutica bíblica

Descobrir o que a Bíblia realmente está afirmando no seu sentido original, tentar entrar no pensamento do autor para resgatar qual era sua intenção original.

Muitas pessoas ao iniciarem a leitura da Bíblia dizem: “cada um interpreta a Bíblia como quer”, e ai está o grande problema. A Reforma Protestante nunca defendeu a “livre interpretação da Bíblia”, isto é, que cada um interpretasse como quisesse, mas defendeu “o livre exame das Escrituras”, isto é, que todas as pessoas deveriam ler a Bíblia cuidadosamente.
Se cada pessoa interpreta a seu jeito, isto significa que nunca saberemos o que a Bíblia realmente quer dizer, por isto ao interpretarmos a Bíblia, devemos evocar o princípio comunitário. O povo de Deus unido em pensamento, deve entender qual é de fato a mensagem bíblica.
Um exemplo simples pode ser dado. Em 1974, cerca de 10 mil participantes estiveram presentes no Congresso de Lausanne, num encontro liderado por Billy Graham e John Stott, contando com a participação de denominações e grupos evangélicos e católicos do mundo inteiro. No final, eles elaboraram um documento que ficou conhecido como “Pacto de Lausanne”, no qual ratificavam de forma unânime, a partir da Bíblia Sagrada, quais eram os pontos essenciais da fé cristã que todos subscreviam. Moral da história: Se lermos a Bíblia com o desejo de ouvirmos a Deus, poderemos até discordar de pontos secundários, mas certamente chegaremos às mesmas conclusões naquilo que é essencial.

Para uma hermenêutica bíblica saudável, pelo menos três princípios devem ser observados:

Primeiro, A Bíblia é o seu melhor intérprete – Ela se auto explica. Este foi um dos princípios da Reforma Protestante: “Sola Scriptura”. Nem a tradição, nem a mística, nem os sentimentos podem se tornar o referencial do intérprete. Nenhum comentarista e nenhuma confissão de fé pode ser o referencial último ao abrirmos as Escrituras. Ao lermos a Bíblia, contamos com a iluminação do Espírito Santo, e assim como aconteceu com os discípulos no caminho de Emaús, nosso coração será aquecido e transformado quando a Palavra de Deus for corretamente aplicada à nossa vida.

Quando lemos um texto obscuro, este texto será clarificado por outro texto das Escrituras. Os textos bíblicos trabalham harmoniosamente e nos darão condições de encontrarmos o escopo de pontos mais complexos, figurativos ou simbólicos.

Segundo, a Bíblia deve ser lida no seu sentido natural – Não devemos ficar procurando na Bíblia um sentido misterioso ou oculto, nem buscar sequencias cabalísticas no texto. Apenas leia a Bíblia, na sua simplicidade, e sua verdade se tornará clara em seu coração. Por isto que interpretações alegóricas, místicas, psicológicas, são desencorajadas.

A leitura no sentido natural nos levará a buscarmos o propósito original do autor ao desenvolver sua ideia. Condições históricas, sociais e politicas nos quais o texto está inserido se tornam indispensáveis para uma interpretação mais segura e acurada. Precisamos conferir texto com textos, analisando exegeticamente as palavras, para tentar resgatar a ideia que estava na mente do escritor original. É fundamental que ela seja lida na sua forma gramatical, parece óbvio, mas muitas pessoas parecem não conseguir fazer um encadeamento de ideias de um texto, e o analfabetismo funcional pode prejudicar a leitura bíblica. Um dos maiores problemas da educação brasileira tem a ver com a interpretação de textos. Você precisa ler a bíblia gramaticalmente antes de ler teologicamente.

Terceiro, a Bíblia jamais deve ser lida fora de seu contexto analítico, do versículo que vem antes e depois, do seu ambiente histórico e geográfico. Todo texto fora do contexto é pretexto. Afirmações bíblicas citadas sem conexões claras, podem se transformar em meios de manipulação.

Três perguntas orientam a interpretação bíblica:

1.     O que vejo no texto? Observação. Olhe atentamente os verbos, o estilo, a pontuação. O que este texto diz? Quais são os personagens envolvidos, quais são os agentes? Quais movimentos estão presentes? Devem ser observados os verbos: tempo, modo e pessoa. Quem? Onde? O que? Quando? Devem ainda ser levado em conta os estilos de linguagem. O texto é narrativo, poético, simbólico?

2.     O que este texto quer dizer? Interpretação. Qual o seu significado quando foi escrito e como isto deve ser entendido por nós no Século XXI. Qual seu contexto politico? Existe algum elemento cultural que deve ser levado em conta? Como este texto ainda pode ser relevante nos nossos dias? A grande maioria dos estudantes se perdem neste ponto.

John R. W. Stott afirma que “pregar é construir pontes”. Podemos afirmar o mesmo na interpretação. Precisamos construir pontes da cultura e ambiente do Séc. I para o Séc. XXI, entender os motivos das perguntas feitas. Qual era o objetivo do texto aos seus leitores ao narrar os diálogos que lemos?

3.     O que este texto tem a ver conosco? Aplicação. Se a leitura e interpretação caminharam bem, a aplicação surge naturalmente. Na aplicação, é preciso descobrir se há algum novo ensinamento que deve ser assimilado, se há um pecado que há ser abandonado, um princípio a ser seguido ou alguma promessa a ser recebida. A palavra precisa ser implantada em nós.

Um dos grandes riscos na leitura da Bíblia é achar que seus ensinamentos nada tem a ver conosco. Que Deus pode até estar confrontando e apontando alguns desvios de outras pessoas, mas não tem nada a ver comigo. Tiago afirma: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque se alguém é ouvinte da palavra e não praticante assemelha-se ao homem que contempla, num espelho, o sue rosto natural; pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era sua aparência” (Tg 1.22-24).
Este é o primeiro desafio hermenêutico: Ler a Bíblia corretamente. Falhar na interpretação bíblica sempre redunda no fracasso da missão da igreja, afinal, como corretamente afirmou Júlio Andrade Ferreira, ao ver o nível de distorção na interpretação das Escrituras Sagradas: “A Bíblia é a mãe das heresias”.

B.
O Desafio da hermenêutica histórica

O Segundo desafio hermenêutico tem a ver com a interpretação do tempo. Precisamos entender o tempo que estamos vivendo.
Cinquenta anos atrás, um grupo de pequenos empresários procurou a indústria Suíça, então a maior produtora de relógios do mundo, oferecendo os relógios de quartzo, uma nova tecnologia que prometia ser uma revolução tecnológica. Os suíços olharam desconfiados para o produto e alegaram que não estavam interessados na aquisição da patente, afinal, detinham 98% do mercado dos relógios produzidos no mundo, então, por que mudar?
Aqueles homens procuraram os japoneses. Qual o resultado? Atualmente, 99% dos relógios produzidos no mundo são de quartzo. Os suíços não perceberam os novos tempos e as possibilidades que estavam surgindo, tornaram-se obsoletos e caros e perderam seu mercado.

Será que a igreja percebe?
Em 1 Cr 12.32 a Bíblia diz: “dos filhos de Issacar, duzentos conhecedores da época e que sabiam o que Israel devia fazer”.
Davi estava formando a equipe que faria parte do seu reinado e daria a direção cultural do país. Ele selecionou duzentos jovens que fariam parte do seu staff no reinado, todos de Issacar, uma tribo quase desconhecida de Israel , porque eram “conhecedores de seu tempo e sabiam o que Israel  deveria fazer”.
Este é um dos grandes desafios que temos a enfrentar. Entender a história, suas tendências e movimentos, e aplicar as escrituras neste contexto.
A geração atual é desafiada a lidar com situações específicas que nossos antepassados nunca tiveram que lidar. São pesquisas genéticas, bioética, softwares de última geração, empresas offshore, network, redes sociais, ecossistema. Será que a igreja consegue fazer a leitura desta época para aplicar uma correta estratégia e alcançar esta geração? A mensagem do evangelho é relevante a esta cultura?

Servindo à sua própria geração

At 13.36 afirma que “tendo Davi, servido à sua própria geração, adormeceu”. Davi não foi chamado a servir a geração anterior, e nem a geração seguinte. Deus o chamou para servir à sua geração. Só podemos servir e tocar de forma direta uma geração. Será que entendemos nossa própria geração? Qual é a geração que estamos servindo?

A geração atual é marcada filosoficamente pelo pluralismo, que admite vários universos de “verdades”, em opiniões divergentes para um mesmo tema. O pensamento não é mais homogêneo...
Outra peculiaridade desta geração é a mobilidade, uma geração em movimento. Ninguém é de um lugar específico. As pessoas saem de suas cidades em busca de educação, melhores oportunidades de emprego e salários. Isto pode ser ruim, mas pode ser também uma chave na evangelização do tempo presente. Outro aspecto tem a ver com urbanização e migração. Temos que pensar a igreja com uma teologia urbana, utilizando metodologia e sociologia urbanas. Por que há tão pouca discussão sobre a igreja na cidade? O que está por detrás deste silêncio na teologia?

A geração atual é ainda marcada pelo pragmatismo, que se estende ao universo da fé. Os jovens desejam saber se sua fé funciona? Certamente esta questão é complexa porque o pragmatismo pode se transformar numa armadilha, mas ela está presente. Associa-se a esta questão o experiencialismo. Se a lógica da modernidade era “Penso, logo existo” (Descartes), hoje a questão maior é a experiência, o não estruturas de pensamento. Portanto o que prevalece é: “sinto, logo me autentico!”. As pessoas gostam de adrenalina e acham que a fé deve ser definida a partir de uma sensação.
Como consequência o misticismo se torna um caminho atraente, pois está alicerçada em fortes sensações e adrenalina. Aliado a isto surge o esoterismo, contatos imediatos de terceiro grau, espiritualização de processos, chás alucinantes, e os  desdobramentos então podem ser macabros e perigosos. Esta geração busca fortes emoções sensoriais.
Aliado a todos estes pontos acima, temos o desconstrucionismo. Um constante movimento para quebrar paradigmas e valores, estabelecer uma nova ordem. Será que ainda podemos falar de papéis e funções de homem e mulher? Marido e esposa? Autoridade? As instituições estão sendo constantemente questionadas.
O relativismo leva a estrutura de pensamento moderno a não trabalhar com categorias absolutas. Para este tempo, tudo é relativo, até mesmo esta afirmação que diz que “tudo é relativo!”, isto é, a relatividade do relativismo. Hegel conseguiu questionar todas as coisas filosoficamente, e é isto que nossos filhos aprendem nas universidades. Não existe posição e oposição, nem tese x antítese. Tudo pode ser encontrado na síntese, que integra os opostos e faz a mentira verdade e a verdade, mentira. Dependendo naturalmente de sua percepção e ponto de vista.
A partir do relativismo o subjetivismo assume grande relevância. A verdade não está “lá!”, mas se encontra dentro de cada um. Com a influência das religiões orientais, até Deus se torna o próprio EU. O objetivo é se tornar coerente com as próprias convicções interiores... A verdade é a verdade de cada um, e não como definia Sócrates ao afirmar que “a verdade é o que é”.
De repente, aquilo que vivemos nos dias da mocidade não serve mais. Temos um processo de aceleração da história e ficamos indagando como a igreja vai responder a tais indagações, que estilo de mensagem usar para alcançar esta geração.
Sempre encontraremos pessoas dizendo: “A mensagem não precisa ser adaptada a nenhuma cultura, o evangelho e seu conteúdo é o que importa”. Entretanto, ao lermos as Escrituras Sagradas, nos surpreendemos com a sensibilidade e o desejo de Jesus em tornar acessível sua mensagem àqueles que o ouviam:

“E com muitas parábolas semelhantes lhes expunha a palavra,
conforme o permitia a capacidade dos ouvintes”
(Mc 4.33).

Ele procurava, através de sua comunicação, anunciar a mensagem de forma eficiente, criativa e relevante, sem prejudicar seu conteúdo. Jesus pregava a partir da percepção dos seus ouvintes. Ele fazia leitura sobre a realidade das pessoas que prestavam atenção à sua palavra.
Precisamos entender esta geração, interpretar corretamente a história, e traduzir de forma relevante e impactante a mensagem do reino de Deus.

Até bem pouco atrás a única questão da igreja era: “como preparar o homem para a vida após a morte?” Por causa deste escapismo histórico absurdos teológicos foram estabelecidos.
Conta-se que Hitler, ao assumir o poder de uma nação decadente, conseguiu o apoio de toda a Alemanha com seu forte discurso nacionalista e xenófobo. Precisando do apoio dos líderes cristãos, ele se reuniu com eles num auditório para as principais lideranças religiosas do Brasil e com seu discurso acalorado, pediu para que eles cuidasse dos céus enquanto ele cuidaria da terra.
No Brasil, a Igreja evangélica foi ingênua ao dar apoio irrestrito ao golpe militar. Ingênua ao apoiar Collor com sua propaganda anti marajá, ingênua ao transformar Lula em salvador da pátria. A bancada evangélica tem se caracterizado por sua ingenuidade politica e fisiológica, em busca de favorecimento e apoio religioso. Fazemos a exegese dos céus mas não conseguimos interpretar a terra com suas ambiguidades, anseios humanos e interesses políticos.
A pergunta que devemos fazer é se podemos também preparar o homem para viver como cidadão responsável, engajado nas questões humanas tão abrangentes quanto aquelas que envolvem uma ética mais abrangente que o sexismo e uma moral privativa.
Abraham Kuyper, estadista e teólogo holandês afirmou: “Um desejo tem sido a paixão dominante de minha vida.um motivo elevado tem agido como estimulo sobre a minha alma e mente (...) Consiste no seguinte: que, apesar de toda a oposição mundana, as santas ordenanças de Deus sejam novamente firmadas nos lares, nas escolas e no Estado, para benefício do povo”. Afinal, afirma Kuyper: “Não há nenhuma área da terra ou do universo que possamos afirmar, não se encontra debaixo do domínio de Cristo”.
Questões como A religião tem importância publica? A teologia pode contribuir com a dimensão politica? As comunidades locais podem ser provocadoras de valores e virtudes públicas, que transcendam apenas o universo estreito de nossa eclesiologia? É possível estabelecer uma formação espiritual com um plano de ação politica fundamental?  
David Koyzis afirma que a soberania derradeira pertence a Deus e toda autoridade terrena submete-se à autoridade divina [1]
Algumas áreas exigem profundas reflexões hermenêuticas:

A.   Área econômico/político – Toda tentativa de entender o presente e o passado, passa pela relação do homem com o dinheiro.

O ódio de Hitler aos judeus não era meramente ideológico. Os judeus eram os donos dos recursos e riquezas da Alemanha e isto o incomodava profundamente. As teses politicas, sejam elas de direita ou esquerda ou nas cinzentas áreas de social democracia ou esquerda/direita moderadas, nada são, em ultima instância, uma tentativa de controle dos recursos e bens que uma nação produz. As decisões parlamentares, que provocam acalorados discursos e debates, são subsidiados por grandes lobbies financeiros.
A igreja precisa entender estes mecanismos para que não se torne uma fácil área de manobra de políticos inescrupulosos. Mesmo as pesquisas, que deveriam ser isentas, são fortemente dominadas por grupos e ideologias.
“À semelhança do apóstolo Paulo em Atenas, precisamos saber o que fazer diante de tantos falsos deuses quando formos apresentar o evangelho aos filósofos do areópago”[1]



[1] DULCI, Pedro – Fé Cristã e ação política – A relevância pública da espiritualidade cristã, Viçosa-MG, Ultimato, 2018, pg.92

B.    Área filosófica – Há um jogo de interesse naqueles que são detentores da força, do dinheiro e até mesmo da ciência.

O Salmista afirma que as nações conspiram contra o Senhor e seu ungido (Sl 2.2), e Paulo afirma que “nossa luta não é contra carne e sangue, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso”, contra as forcas espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). Facilmente interpretamos tais movimentos como ações diretas do maligno, mas nunca consideramos que a área mais crucial é a do pensamento. Por isto Paulo ainda afirma que “as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Co 10.4-5). 
A igreja batalha da igreja encontra-se no mundo das ideias, atuam no campo do saber e do conhecimento.

C.    Área histórico-cultural – A Igreja precisa interpretar os movimentos sociais, as fortes expressões históricas de uma América Latina que se reveza indefinidamente num quadro de caudilhos messiânicos de esquerda e direita.

Precisamos entender nossas raízes católicas, portuguesas, a presença das forças e tensões africanas e a mestiçagem indígena que não possui uma cultura apenas, mas é formada por diferentes etnias e línguas, de um país fragmentado. A igreja precisa saber como agir com justiça diante da exploração dos grupos financeiros externas, e pela inescrupulosa sangria dos recursos públicos administrados por uma elite política.

Como elaborar uma saudável hermenêutica?
Três passos são fundamentais: Ver, Julgar, Agir.

Primeiro, “Ver”

Isto pode ser observado na forma como Paulo procura ultrapassar a barreira cultural ao pregar em Atenas. Paulo avaliava o que via. Ele “observava”(At 17.22-23).
É fundamental manter os olhos abertos, ter uma atitude crítica.
Jesus condena aqueles que tem “olhos mas não veem”. A maior cegueira se encontra na apatia, indolência e ingenuidade.
Quando escreve a Tito, ele cita os poetas daquela ilha. “Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos” (Tt 1.12).
Tudo isto revela o olhar atento de Paulo. A Igreja precisa observar o que é dito e o que não é dito. Ler as linhas e entrelinhas, verso e reverso. Paulo conhecia a “literatura de cordel” dos cretenses, cita os poetas atenienses (At 17.28).


Segundo, “Julgar”
Em Atenas, Paulo julga o que vê. Coloca uma lente na cultura grega idolátrica e a interpreta sob o prisma da teologia e cosmovisão cristã.
Ao escrever a Tito, ele estabelece uma relação entre a visão do poeta citado e da realidade que Tito experimenta naquela comunidade estabelecida numa cultura pagã que agora precisava se torna seguidora de Cristo.
O julgamento não deve ser condenatório, mas crítico, para que não sejamos conduzidos pela ingenuidade característica da igreja.

Terceiro, “Agir”
A ação precisa estar fundamentada sobre determinados alicerces filosóficos. A compreensão social nos ajuda a estabelecer prioridades e estratégias. Toda ação deve nascer dentro de um contexto geral para ser efetiva num campo específico. As necessidades de uma região não são as mesmas de outra. No Rio de Janeiro há um ditado que nos ajuda a entender: “Os demônios da Zona Sul não são os mesmos da Zona Norte.
Nenhuma ação efetiva se estabelece num vácuo histórico. As dores e calamidades possuem geografia, história, ancestralidade e precisam ser exorcizadas com sabedoria e bom senso.

“Com a sabedoria se edifica a casa, e com o entendimento ela se estabelece;
E pelo conhecimento se encherão as câmaras com todos os bens preciosos e agradáveis. O homem sábio é forte, e o homem de conhecimento consolida a força. Com conselhos prudentes tu farás a guerra”(Pv 24.3-6).


Será que a igreja de hoje entende seu tempo?





[1] KOYSIS, David, Visões e ilusões politicas: Uma análise e crítica cristã das ideologias contemporâneas. São Paulo, Vida Nova, p. 263




Obs. 
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2. O Desafio Teológico



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Resgatando as doutrinas essenciais da fé cristã



Introdução: 



A palavra “doutrina” e “teologia”, parece causar comichão em alguns pessoas. A palavra “espiritualidade” parece estar mais em destaque e parece mais simpática aos ouvintes dos leitores em nossos dias. Doutrina parece se relacionar a “dogmas”, institucionalização e traz de forma consciente ou não um ranço de conservadorismo, legalismo e moralismo.
Teologia parece ocupar uma esfera de intelectualização da fé, com pouco espaço para a espontaneidade, simplicidade, alegria no Espírito, e por isto, as pessoas facilmente se retraem quando a palavra é mencionada.
Curiosamente quando lemos as cartas pastorais, ficamos impressionados com a quantidade de vezes que Paulo usa a palavra doutrina. Paulo exorta a Timóteo “cuida de ti mesmo e da doutrina” (1 Tm 4.16). Era necessário cuidar da doutrina. É muito curiosa esta exortação. Não apenas devemos cuidar da vida: corpo, mente, emoções e alma, mas devemos cuidar também da doutrina que professamos.

Mark Dever afirma que a Teologia Bíblica é uma das nove marcas de uma igreja saudável.

Apesar da palavra doutrina estar fortemente associada a dogmas, algo inflexível, inegociável, eu o encorajo a anotar na sua Bíblia quantas vezes aparece a expressão doutrina, apenas nas cartas de Paulo a Timóteo e Tito.
Paulo fala, por exemplo de “boa doutrina” (1 Tm 4.6) de “outras doutrinas”(1 Tm 1.3) e da “sã doutrina” (1 Tm 1.10). Vamos pensar um pouco sobre cada uma destas afirmações.

Primeiro, temos que entender que existe “boa doutrina”, o que inexoravelmente nos leva a considerar que existe seu oposto, ou seja, “a má doutrina”.

Boa parte dos livros do Novo Testamento é apologética, por sua natureza. O propósito dos autores era de “defender a fé, uma vez dada aos santos” (Judas vs 3). Por que? Já nos dias apostólicos, “certos indivíduos se introduziram com dissimulação” na igreja (Jd 4). Era muito comum surgirem pregadores afirmando coisas contrárias à fé cristã, o conjunto de crenças aceito pelas igrejas Cristãs. Paulo cita nominalmente Himeneu e Fileto, pregadores desviados da verdade (2 Tm 2.17,18). O perigo da má doutrina é sempre constante. Muitos se apostaram da fé e passaram a obedecer a ensinos de demônios, cauterizando a consciência e ensinando heresias no no meio das igrejas (1 Tm 4.1-3).

A grande luta dos reformadores do Século XVI foi contra as distorções da Palavra de Deus. Era necessário retornar as escrituras e considerar atentamente o que Jesus e os apóstolos ensinaram à igreja. Eles desenvolveram o princípio da Sola Scriptura, isto é, apenas as Escrituras Sagradas poderiam ser o fundamento daquilo que deveriam crer e dar as normas de como deveriam viver. Nem tradição, nem novas revelações ou novos ensinamentos, poderiam substituir ou serem acrescentados à Palavra de Deus, Antigo e Novo Testamentos.

Não é muito diferente em nossos dias.

Uma pessoa se converteu em nossa igreja mas posteriormente se mudou de denominação atraída por sinais, depois de vários anos afastada ela resolveu voltar para sua igreja de origem. Nesta sua peregrinação espiritual participou de igrejas diferentes, ouviu muitas opiniões, doutrinas e linhas teológicas. No seu desabafo afirmou: “pastor, o senhor não faz a mínima ideia das loucuras e desvarios que tem sido ensinado em algumas comunidades evangélicas nestes dias. Ela estava certa!
Tenho recebido inúmeras pessoas em nossa comunidade com backgrounds neo pentecostais, que começaram a estudar seriamente as Escrituras Sagradas e já não mais podiam ficar na sua igreja de origem. Elas amavam suas comunidades, gostavam pessoalmente de seus pastores como pessoas, mas não mais podiam conviver com suas igrejas pelo fato de que estavam ensinando coisas absolutamente contrárias à da fé cristã e ao Evangelho. Quero apenas ressalvar que tenho conhecido muitas igrejas neo pentecostais com boa teologia bíblica.

A exortação paulina parece cada vez mais atual: Cuida da boa doutrina. Cuidado com a má doutrina.

A má doutrina pode destruir a simplicidade de sua fé e tornar a vida um inferno de acusação, medo e culpa. Paulo diz a Timóteo que, cuidando dele e da doutrina salvaria tanto a si mesmo como a outros. A má doutrina pode levar–nos ao inferno, ainda que tenhamos a impressão de que estamos caminhando em direção ao céu.

Em segundo lugar, Paulo fala ainda da sã doutrina, o que nos leva a considerar que existe seu oposto, a doutrina doente.

A doutrina bíblica é saudável, traz vida aos ouvintes e praticantes. A doutrina doente, neurotiza, sataniza e enlouquece seus seguidores. Não é por acaso que hospitais psiquiátricos estão repletos de pessoas seguidoras de religiões. Princípios distorcidos podem enlouquecer as pessoas.

Em terceiro lugar, Paulo fala ainda de “outras doutrinas”(1 Tm 1.3). Ele deixou Timóteo em Éfeso para que admoestasse certas pessoas a não ensinarem “outra doutrina”, isto é, havia naquela igreja, pessoas que estavam ensinando o que Deus nunca havia dito.

Na carta aos Gálatas, que foi escrita cerca de 30 anos depois da morte de Cristo, a igreja da Galácia, estava pervertendo o evangelho, passando da graça de Cristo para “outro evangelho” (Gl 1.6-9). O problema crucial é que não existe outro evangelho. Nada pode substituir o evangelho, ser colocado no seu lugar ou adicionado a ele. O evangelho ou é puro ou não é evangelho. Paulo afirma que ainda que um anjo vindo do céu, pregasse outro evangelho, deveria ser considerado maldito (Gl 1.8). Ainda que um pregador eloquente, uma profetisa ou profeta místico fizesse afirmações contrárias, deveriam ser considerados como enviados pelo diabo e rejeitados.

Existe um “outro evangelho”, uma “outra doutrina”, sendo ensinado por aí, e não deveremos nunca aceitá-la. Rejeitar a verdadeira doutrina pode nos destruir espiritualmente, como afirma as Escrituras (1 Tm 4.16).

Ao nos referirmos ao desafio teológico, precisamos desmistificar alguns conceitos: 

1.     Não estamos falando do enclausuramento da divindade - Infelizmente, alguns dos homens que possuem maior conhecimento teológico, parecem perder a simplicidade e beleza do evangelho.

É bom reconhecer que o “o saber ensoberbece, mas o amor edifica” (Rm 8.1). Há muitos “senhores do saber”, que sequestram a divindade e tentam transformar o Deus incompreensível e Todo-Poderoso em um Deus domesticado e objeto de pesquisa no laboratório exegético/hermenêutico,   limitando Deus a uma compreensão  grega e aristotélica, que se encaixa dentro de uma percepção limitante do espaço/tempo.

Veja o assombro do profeta Isaias diante da majestade de Deus:

“Verdadeiramente, tu és Deus misterioso,
Ó Deus de Israel , ó salvador” (Is 45.15)

E da reverência do profeta Naum ao afirmar:

“O Senhor tem o seu caminho na tormenta e na tempestade,
E as nuvens são o pó de seus pés” (Naum 1.3)

Quando Moisés foi convocado por Deus no deserto, ele se sentiu inseguro, afinal, havia lidado com tantas divindades egípcias e agora convivia num ambiente pagão onde se casara com a filha de Jetro, que era um sacerdote de Om. Ao ouvir o chamado de Deus, ele tenta definir (que é uma espécie de delimitação da divindade), indagando seu nome. Na cultura semítica significaria “ter o controle”, mas Deus apenas se define como o enigmático: “EU SOU O QUE SOU”. Deus não dá seu nome a Moisés, e nem se subordina ao seu escrutínio.

Os amigos de Jó erraram ao tentar interpretar erroneamente a Deus. Eles erraram teologicamente. Curiosamente seu discurso era todo focado na “justiça retributiva” do Antigo Testamento e da teologia judaica que dizia: “Se fizermos o bem, então tudo dará certo na nossa vida.” Tal teologia se aproximava muito do conceito da moderna teologia da prosperidade que acredita que podemos transformar Deus em refém de nossa “fidelidade”.  O que observamos no livro de Jó é que Deus não apenas se submeteu ao esdrúxulo método teológico que adotaram, como afirmou que Jó, em toda sua ambiguidade e contradição, estava compreendendo melhor o mistério de Deus.

Erraram por reduzir Deus a um esquema de pensamento, fazendo uma leitura reducionista. Deus é maior do que a nossa teologia e está acima de tudo o que dizemos dele. Não é sem razão que os profetas Isaias e Naum se revelam perplexa quando contemplaram o Deus que transcendia os métodos de hermenêutica de sua fugaz teologia.

Podemos afirmar que “previsibilidade” não é, certamente um atributo de Deus – Santidade, estabilidade e fidelidade, sim. Deus é soberano e livre para agir como quiser, segundo o beneplácito de sua vontade (Ef  1.5). É impossível colocar Deus na equação: “Se eu agir assim, ele responderá assim”. Ele é soberano e livre para fazer o que quer fazer: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim?” (Rm 9.20). Ele age segundo a sua vontade e seu bel prazer e sua  livre vontade.

Ele é sábio, amoroso, providente e bom – e tem todo poder. Ele conhece tanto o passado quanto o futuro, tem planos para a história e para sua vida pessoal. Meios imprevisíveis e rotas alternativas podem ser a forma dele comunicar verdades, mas Ele não é previsível. C. S. Lewis afirma: “Ele é perigoso, mas é bom!”

O problema é que, quando colocamos em Deus conceitos e palavras, queremos que ele corresponda à nossa expectativa, e que não nos frustre.

2.     Não estamos nos referindo a uma teodiceia, teosofia ou hipótese sobre Deus. O pensar teológico cristão tem a ver com a livre revelação que Deus faz de si mesmo na sua palavra. A teologia cristã não é filosófica, mas revelativa. O que sabemos de Deus tem a ver com aquilo que Deus resolver falar de si mesmo. Tudo o que podemos saber de Deus, o fazemos por meio de sua palavra.

Portanto, não se trata de fazer especulação sobre a divindade, mas aprender a considerar quem Deus é a partir daquilo que ele quis que soubéssemos sobre si mesmo. Dois textos podem nos ajudar a entender isto.

Dt 28.28: “As coisas reveladas pertencem a nós e a nossos fillhos, as coisas encobertas pertencem a Deus”. Deus graciosamente levantou um pouco a cortina de mistério que o envolve e deixou que pudéssemos contemplar aspectos do seu poder e santidade. Ele se deu a conhecer aos profetas e a seu povo. O que sabemos de Deus é aquilo que Deus quis que soubéssemos sobre ele.

Rm 1.20: “Porque os atributos de Deus, assim como sua eterna divindade e seu eterno poder, são claramente reconhecidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são por isto indesculpáveis”. Deus também se deu a conhecer através das coisas que ele criou. Sabemos um pouco de Deus através da sua revelação geral, que faz parte da sua graça comum. Mesmo os homens pagãos não estão sem testemunho de Deus. A natureza faz teologia. “Os céus proclamam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos” (Sl 19.1). Deus se deixou conhecer através de sua criação. Por esta razão, nenhum homem será indesculpável diante dele.

CARACTERÍSTICAS MARCANTES 
Ao falarmos de teologia, devemos considerar: 

1. “Estamos interessados em saber como Deus realmente é, e não em quais são os nossos desejos” (Mark Dever) Deus se revela nas Escrituras como Criador, Santo, fiel, amoroso e soberano.

Todas as culturas tentam moldar um Deus de acordo com seus desejos, que justifique sua ética pecaminosa, por esta razão os homens se parecem com seus deuses. Os homens criam deuses e entidades que a Bíblia chama de idolatria: Um Deus feito à imagem humana e a partir das conjecturas humanas.

O Deus das Escrituras vai muito além da criação mental e psicológica do homem. Ele não é uma projeção amplificada da humanidade e nem subproduto dos seus anseios arquetípicos. Ele é o criador, Dele procedem todas as coisas. Ele é o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, e criou a raça humana para seu louvor e glória. “O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”. O homem foi feito por Deus e para Deus.

Deus não deixa de ser Deus quando não cremos nele ou quando não o reconhecemos, e nem deixa de existir porque somos agnósticos ou ateus. Sua existência não depende ou não de nossa crença. Ele não é maior nem menor porque fazemos ou deixamos de fazer algo. “Ele é antes de tudo. Nele tudo subsiste”. Por isto também, podemos inferir que ele não existe apenas porque admitimos sua realidade, neste caso, Deus seria uma espécie de projeção mental.

2. “Nada entenderíamos sobre a Bíblia, se não entendêssemos o Deus a respeito do qual ela fala. O próprio Deus é a mensagem da Bíblia. O que Ele revela sobre Si mesmo nos proporciona o meio de entendermos todas as outras coisas” (Mark Dever).

A cosmovisão cristã é moldada pela compreensão de quem Deus é. Um Deus frouxo desemboca numa ética frágil. Um Deus pusilânime, nos leva a viver de forma inconstante, por isto, para entendermos todas as outras coisas, precisamos de um ponto de referência e o Deus das Escrituras deve ajudar a avaliar, interpretar e agir conforme seu caráter. A concepção de um Deus inflexível e punitivo, nos transforma sem seres impiedosos e legalistas. Um Deus santo exige santidade, um Deus fiel exige fidelidade, um Deus soberano gera em nós dependência e admiração.

O grande inimigo da teologia bíblica

Satanás sempre conspirou contra a Palavra de Deus, desde a criação. Já no Éden observamos que ele questiona, minimiza e relativiza a Palavra. Quando Jesus foi tentado, a mesma técnica foi usada. Ele não questionou o que Deus disse, mas deturpou as afirmações de Deus, tentando fragilizar as convicções que Jesus possuía acerca de seu Pai.

Quando abrimos os evangelhos, Jesus está constantemente interpretando a Palavra para os discípulos e religiosos, mostrando como suas ênfases equivocadas na Lei de Moisés traziam danos para suas almas e conspiravam contra o projeto de Deus.

As cartas gerais, pastorais e paulinas, encontradas no Novo Testamento são marcadas por tentativas de separar o joio do trigo, a palha do grão, as tradições ou invenções humanas das afirmações do Pai celeste. A Palavra de Deus está constantemente sendo ameaçada por heresias e apostasia. Apenas no livro de Apocalipse são citados grupos como os nicolaítas, os que traziam as “doutrinas de Balaão”, pessoas com “espírito de Jezabel. Quão grandes e variadas são as estratégias de Satanás em confundir a Palavra de Deus na mente dos homens.

Na história da igrejas as ameaças continuam, apenas relacionadas à pessoa de Jesus surgiram movimentos como ebionismo, marcionismo, docetismo, arianismo e variações do gnosticismo.
Nem o ateísmo, o agnosticismo ou apostasia são tão ameaçadores à teologia bíblica quanto as heresias que sutilmente surgem no meio da igreja. Heresias não são negação de uma verdade, mas a distorção da verdade. Basta uma super ênfase num aspecto doutrinário para que se negue a verdade. Tome-se, como exemplo, a graça de Deus, quando desemboca no antinomianismo. Isto é, se é de graça, não precisa haver disciplina, nem temor, nem santidade. Se isto acontecer, já temos um pêndulo herético.
Satanás é mestre no engano. Usando o mesmo exemplo acima, uma pessoa religiosa, legalista, pode chegar à equivocada conclusão de que a salvação é de graça, mas que é necessário fazer alguma coisa para alcançar o favor de Deus. Se acrescentarmos qualquer virtude à graça, a salvação já não é de graça, mas é performática. Dá para perceber as sutilezas possíveis?

CONSTRUINDO UMA TEOLOGIA BÍBLICA

Precisamos aprender a pensar teologicamente, uma tarefa não tão simples, já que profundidade teológica exige reflexão, oração e estudo, mas paradoxalmente, uma tarefa simples, já que, sem nos darmos conta, construímos ideias e conceitos sobre Deus (e deuses), basta observar as religiões pagãs, com seus pressupostos sobre a divindade, entidades, anjos e demônios, livros sagrados, etc.
Temos o grande desafio de construir uma teologia bíblica. Isto certamente envolve alguns pressupostos sobre a Bíblia.

1.     Nossa teologia é revelativa, como afirmamos anteriormente. Sendo assim, precisamos ler atenciosa e cuidadosamente a Palavra, não com o desejo de questioná-la, mas com o desejo de nos submetermos a ela. Tiago exorta os fieis a receber “com mansidão” a Palavra de Deus que nos foi entregue (Tg 1.21). Podemos receber sua mensagem de forma rebelde, desobediente e não como alguém que deseja aprender da Palavra e ser transformado por ela. Toda teologia bíblica ortodoxa precisa considerar a infalibilidade das Escrituras, sua inerrância e sua inspiração.

2.     Como praticantes da palavra e não apenas como ouvintes, o pensar do cristão deve ser o de submissão e atenção. O cristão, em última instância, não pode ser livre pensador. Sua função é  refletir a partir da revelação que Deus faz de si mesmo na sua palavra.

Na Dieta de Worms, pressionado pelo Imperador, príncipes e senhores feudais, para que fizesse solenemente a retratação de seus escritos, Lutero declarou: “A menos que vocês provem pela Escritura e pela razão que eu estou enganado, eu não posso e não me retratarei. Minha consciência é cativa à Palavra de Deus. Ir contra a minha consciência não é correto nem seguro. Aqui permaneço eu. Não há nada mais que eu possa fazer. Que Deus me ajude. Amém.”

3.     A Teologia Bíblica possui um “corpo doutrinário”, que sustenta sua visão de mundo, de salvação, de ética, de fé e prática.

O pensar teológico sustenta nossa vida pessoal e a dinâmica da igreja de Cristo. Rejeitar a “doutrina”, achando que isto traz benefício, em nome de uma espiritualidade vaga, sempre desembocará em danos irreversíveis para a comunidade cristã. Adotar uma filosofia de vida, rejeitando os mandamentos de Cristo não trará libertação, mas equívocos graves à fé cristã, afinal, como bem afirmou o Rev. Wilson de Souza: “Se Deus não disse o que teria dito, porque não disse o que teria de dizer?”
“Amados, quando empregava toda a diligencia em escrever-vos acerca da nossa comum salvação foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3)

Conclusão:

Cuida de ti mesmo e da doutrina
Não apenas da doutrina, mas de si mesmo.
Não apenas de si mesmo, mas da doutrina.

Podemos estar cuidando muito bem de nós mesmos, mas desprezando o verdadeiro conhecimento de Deus.

Podemos nos tornar guardiões da doutrina e da fé cristã, como um grupo de templários modernos, de fariseus judaizantes, de puritanos calvinistas ou devotos arminianos ou ainda de pentecostais dos últimos dias, mas não estarmos cuidando da simplicidade da fé e da pureza que precisamos ter no nosso estilo de vida.

As duas situações são perigosas. Ambas podem nos destruir.

A sabedoria ensina que ao entrarmos num barco, precisamos remar não apenas de um lado, porque isto leva o barco a andar em círculo ao invés de seguir uma direção. Desenvolver espiritualidade distorcida traz desequilíbrio. O cuidado pessoal com o corpo, emoções, mente e alma precisa estar junto, andando com a defesa das verdades e doutrinas reveladas por Deus na sua palavra.






terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Como implementar mudanças em comunidades petrificadas?


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A reclamação comum que encontramos da parte dos pastores é que mudanças não acontecem porque a liderança é obtusa, fechada e conservadora. Por mais que as transformações pareçam ser oportunas e necessárias, o medo do novo, a dificuldade com processos, eventualmente dificultam movimentos que poderiam trazer efeitos benéficos e duradouros.

A Bíblia mostra como mudanças de paradigmas podem ser difíceis.

A ordem clara de Jesus foi dada aos discípulos: “Mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como na Judeia, Samaria e até os confins da terra” (At 1.8). Eles deveriam sair de Jerusalém, ir ao encontro dos gentios, mas isto era tão revolucionário para a mentalidade judaica, que os discípulos se negaram a cumpri-la. Foi aí que Pedro recebeu a visão dos lençóis em Atos 10. Apesar da ordem clara, mesmo numa visão direta de Deus, Pedro se recusa a obedecê-la. Na verdade Pedro teve a visão não porque fosse um homem obediente, mas por causa de sua teimosia e dureza.

Pedro estava sendo confrontado com as mudanças que o próprio Espirito de Deus estava gerando, mas resistiu fortemente às mudanças, de forma confrontadora contra o próprio Deus. Finalmente ele aquiesceu. Mesmo assim muitas coisas precisaram ainda ser esclarecidas, e o capitulo 11 nos mostra porque Pedro estava tão hesitante. Ele teria que se explicar com a liderança de Jerusalém. Os apóstolos se reúnem querendo saber como ele se atreveu a entrar na casa de um gentio, comer com ele e lhe pregar o Evangelho.

Viram como as mudanças de paradigmas não são nada fáceis, mesmo quando a ordem de Deus é direta? 

Isto acontece porque o novo, em teologia, é quase sempre negação do velho. Então, quando um fato novo surge, mesmo se tratando apenas de estratégias, formas e métodos, pode parecer herético. É fácil confundir acidente com essência, histórico com revelado e temporal com o eterno. Por esta razão, muitas igrejas continuam com o mesmo cardápio, a mesma abordagem, a mesma liturgia, para um povo vivendo num contexto diferente. 

O Hino da Mocidade Presbiteriana do Brasil, composto por Moacir Bastos, diz o seguinte: “Somos jovens num mundo velho, a pregar novos ideais; do mesmo evangelho que pregaram nossos pais”. Muitas vezes, porém, tenho a impressão de que as pessoas gostariam de cantar: “Somos velhos num mundo novo, pregando ideais antigos”. A verdade é que muitas pessoas não querem, não sabem, ou não podem mudar. Este processo pode ser dolorido e angustiante, chegando mesmo a parecer uma traição à denominação ou aos antigos pressupostos pré estabelecidos. Em discussões como esta já ouvi pessoas resistentes a mudança alegarem que “se mudarmos as formas, mudaremos o conteúdo”. Elas realmente creem nisto! Não é sem razão que a possibilidade de mudança traga dor e tanta resistência.

Se o cenário é de um pensamento petrificado, como então, podemos esperar mudanças significativas?

Alguns mais impacientes respondem imediatamente e com acidez: “orem para que Deus promova estes irmãos!” Bem, muitas vezes, as mudanças acontecem desta forma mesmo. Seria espiritualmente correto afirmar que é necessário que uma liderança engessada seja promovida para a glória, a fim de que novos ares comecem a soprar? Por que esperar tanto tempo? Não seria possível tomar atitudes sensatas que ajudariam neste processo necessário de mudança?

Alguns princípios, para ajudar processos de mudança, se aplicados, podem se tornar valiosas ferramentas:

Primeiro, as pessoas precisam confiar no líder. Muitas pessoas que resistem, o fazem, porque ao levar em conta a história já viram tantas mudanças catastróficas, e hesitam em transformações. Isto as assusta! O problema é que, muitos pastores, ao serem designados para igrejas locais por seus presbitérios, equivocadamente pensam que são líderes daquela comunidade, quando na verdade, os líderes já estão lá antes de sua chegada. Alguns destes líderes já viram muitos outros pastores chegando e saindo, e alguns deles não eram muito confiáveis, eventualmente eram afoitos e inconsequentes, e saiam deixando a igreja desestruturada, e em muitos casos falidas espiritual e financeiramente.

Pesquisas apontam que um pastor normalmente leva sete anos para ser reconhecido como líder de uma igreja local. Podemos, então, concluir, que liderança se constrói e se conquista, não se impõe. Mudanças paulatinas para comunidades desconfiadas podem, aos poucos, demonstrar que o novo pastor deve ser seguido na sua liderança. Igrejas que passam por boas e positivas transformações o fazem porque se sentem seguras com a nova direção e rumo que precisa ser dado.

Segundo, a comunidade precisa ser inspirada para as mudanças. Ela precisa entender que tais mudanças serão de fato positivas. Se a comunidade é mais conservadora, a leitura imediata é que “as coisas estão boas do jeito que estão”, então, para que mudar. Alguns chegam a falar: “Não se deve mudar time que está ganhando”, mas, eventualmente, o time precisa mudar para ganhar mais, para se renovar. Nem sempre é fácil convencer as pessoas de que mudanças podem ser salutares. 

Terceiro, a comunidade precisa entender as mudanças. Muitas vezes as mudanças estão claras na mente daquele que a propõe, mas ainda não foram consolidadas e entendidas pela maioria das pessoas. O grande problema nesta situação tem a ver com a comunicação. Nem sempre as pessoas estão entendendo o que estamos falando. Um projeto bem feito, uma visão bem transmitida, é o grande desafio de qualquer liderança.

Quarto, num dos Congressos recentes que participei, o Pr. Sérgio Queiroz, da “Cidade Viva”, em João Pessoa-PB, surpreendeu a todos os congressistas com a afirmação: “Leve seus líderes para passear”. Muitas vezes os lideres viveram a vida inteira em torno de um único conceito, e não conseguem ter uma ideia mais ampla, nem visualizar o que pode acontecer com o potencial que a igreja tem nas mãos. Não é maldade, é desconhecimento. Conversar com outras pessoas, trocar experiências, ouvir pessoas sinceras falando de projetos desafiadores e princípios que podem ser aplicados, abre a visão e projeta positivas transformações. Leve seus líderes para encontros e eventos onde terão oportunidade de ouvir novas abordagens, isto facilita o processo.

Quinto, o Pr. James Meeks, da Salem Baptist Church em Chicago, deu uma boa dica de como fazer isto: “Não dê anúncios, mas pregue anúncios!”. A tese dele é que os projetos da igreja precisam ser teologicamente fundados. Muitas pessoas ao verem o projeto pode acreditar que ele não apenas não pode ser aplicado, mas que conspira contra a Bíblia e por conseguinte, herético. Então, se as pessoas não entenderem biblicamente as mudanças, não terão interesse em aplicar tais métodos à vida da igreja. Isto é importante para nós também, que desejamos liderar projetos. O que estamos querendo fazer encontra suporte na teologia bíblica e reformada? A visão não é contrária ao pensamento das Escrituras? Deus aprova o que fazemos?

Mudanças são necessárias e nos desafiam. Pessoas precisam de mudança, famílias precisam mudar, igrejas precisam atualizar sua abordagem quanto ao estilo, contexto histórico e missões. Não transforme a mudança num problema que roube sua paz, nem desista de realizá-las. Temor a Deus, sabedoria, respeito às pessoas, preparação e comunicação são essenciais neste processo. Não é preciso nem necessário orar para que as pessoas resistentes às mudanças sejam promovidas para a glória. Eventualmente as pessoas mais resistentes, quando entendem as melhorias que as mudanças trarão, podem se transformar em grandes aliados dos projetos.