segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Barreiras na comunicação transcultural



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O Papel da cultura na comunicação

Barreiras na comunicação transcultural

 

 

Introdução

 

Hesselgrave inicia o artigo O papel da cultura na comunicação[1] demonstrando que, antigamente, as grandes barreiras concernentes à pregação do evangelho a todo mundo, estava ligada à barreira física, às grandes distâncias e ao tempo que se levava para chegar de um lugar a outro, mas que, no momento, as grandes barreiras na comunicação transcultural estão relacionadas ao campo da hermenêutica.

 

“o problema era transportar pessoas, mensagens e bens materiais através de mares traiçoeiros, montanhas altíssimas e desertos sem trilhas ou caminhos visíveis...atualmente... “podemos levar um homem, uma Bíblia ou uma máquina de costura a qualquer lugar do mundo em poucas horas, e é possível transmitir um som ou uma figura em questão de segundos. Contudo, essas facilidades não encerram o assunto”[2]

 

Mesmo falando a mesma linguagem, o missionário pode usar as mesmas palavras, mas o receptor da mensagem pode entendê-la num sentido diferente. As barreiras, portanto, não são essencialmente físicas, mas culturais.

 

Lima afirma que

“As culturas filosóficas valorizam muito a cognição, enquanto as culturas integradas valorizam mais a experiência prática da vida. Assim é bom tentar perceber quando a convicção chega ao coração do ouvinte”.[3]

 

De 1994 a 2002 estive envolvido no projeto de plantar igrejas nos EUA. Inicialmente nosso público alvo era brasileiros, portugueses e povos de língua portuguesa, eventualmente, atingindo um ou outro de língua espanhola e algum americano (a), que se interessava pela cultura e língua (e algumas vezes se interessava por um namoro). Posteriormente as igrejas, procurando ser mais relevantes, começaram um longo, e árduo, processo de se tornar uma igreja multicultural. Formamos assim a Christ The King Presbyterian Church em Cambridge, MA (EUA).

 

A nossa igreja em Boston, se tornou até mesmo objeto de estudo e pesquisa acadêmica, porque conseguiu formar uma comunidade multicultural, tendo um pastor e um conselho misto, composto de americanos e brasileiros. No inicio, a maior parte da comunidade era brasileira, mas aos poucos, americanos foram chegando e tínhamos um culto pela manhã em inglês, traduzido simultaneamente para o português, e à noite, um culto em português, traduzido para o inglês. O cenário parecia ideal, pois era um grande desafio ver o evangelho integrando povos de diferentes culturas, e sem um pentecostes, no qual o Espírito Santo traduzia a mensagem para a língua nativa de cada grupo, tentávamos traduzir nossas diferenças e contrastes culturais. As pessoas estavam impressionadas com o que viam externamente, nós, que estávamos lidando diretamente com a questão, estávamos muito preocupados com a dinâmica e o processo. Havia sempre aspectos que não conseguiam ser articulados, e a compreensão de um e outro grupo, embora nos esforçássemos em manter, enfrentava barreiras sérias.

 

Infelizmente, mais tarde, depois de muitas tentativas, discordâncias e desavenças, o grupo não conseguiu mais andar junto. As disputas e acusações se tornaram cada vez mais intensas, a vaidade, competição e luta não permitiram que a igreja caminhasse como inicialmente havia proposto: em unidade e integração.

 

Quando estávamos no inicio desta caminhada, diagnosticamos várias barreiras que com o passar do tempo se tornaram quase intransponíveis:

 

A.   Gap Linguístico – O conselho da igreja se reunia para a discussão, e naturalmente toda conversa deveria ser em inglês. Para os imigrantes, na sua maioria pessoas simples, que faziam parte do diálogo, o processo de comunicação numa língua estrangeira tinha quatro fases:

 

                                               i.     Ouvir em inglês

                                             ii.     Traduzir mentalmente para o português

                                            iii.     Pensar em português

                                           iv.     Traduzir verbalmente para o inglês.

 

Quando, finalmente, os brasileiros se comunicavam, o faziam numa linguagem pobre e demorada. Perdia-se, portanto, a força do embate e do argumento. Além do mais, o americano ao ver alguém falando com dificuldade e com um inglês inseguro, tendia a achar que esta pessoa era intelectualmente menor. Ele não considerava que, na verdade, tal pessoa falasse em duas línguas, enquanto ele só se comunicava em uma. Certa vez, um dos líderes brasileiros, que era o que melhor se expressava em inglês, se irritou e afirmou: “ I have accent on my language, but I don’t have on my mind” (eu tenho sotaque na minha língua, mas eu não tenho na minha cabeça).

 

B.    Gap Intelectual – A segunda barreira que encontramos estava no nível do preparo intelectual. Uma pessoa com mais preparo, não necessariamente é mais inteligente, mas, na maioria das vezes, tem melhores oportunidades.

 

No caso desta igreja, vivíamos ao lado de grandes universidades. Boston possui 107 universidades para uma população de 4 milhões de habitantes. Pessoas do mundo inteiro migram para aquela cidade buscando melhores formações. Duas das maiores universidades do mundo, Harvard e MIT, eram vizinhas da igreja. Era natural que o público americano fosse muito bem preparado.

 

Do lado brasileiro, a maioria era de pessoas fazendo dirty Jobs, (trabalho braçal) trabalhando em subempregos, então, a forma de julgar as coisas, conceitualmente, era muito diferente. Um dos brasileiros que era um homem extremamente inteligente, embora sem educação formal, orgulhosamente me confidenciou um dia que, pela primeira vez na sua vida, tinha conseguido ler um livro inteiro.

 

Embora houvesse profunda sensibilidade de alguns membros do conselho do lado americano da congregação, isto não estava presente em todos. Havia especialmente da parte do pastor americano, um certo esnobismo cultural e uma depreciação aos imigrantes. Estes, por sua vez, já sofriam este desnível social no seu trabalho, e projetavam isto na comunidade. O sentimento de rejeição estava presente e isto se manifestava no diálogo com os americanos.

 

C.    Gap Financeiro – Em toda sociedade moderna, um padrão comum que pode ser encontrado é que, pessoas com melhores formação, tendem a ter melhores condições salariais.

 

Isto não era diferente em Boston.

Enquanto o brasileiro trabalhava 70-80 hs semanais para um salário anual de 30 a 40 mil dólares, o salário do americano, que trabalhava suas 40 hs semanais, girava em torno de 100 mil dólares.

 

Quem ganha melhor, consome de forma diferente, viaja mais, compra melhores carros, possui melhores programas sociais e vive em casas maiores. E isto, em qualquer sociedade, distancia pobres dos ricos. Não necessariamente de forma intencional, mas porque o estilo de vida é diferente.

 

Este aspecto, eventualmente se tornou um grande problema na vida compartilhada, que era uma das propostas essenciais da igreja multicultural. O que se buscava era uma igreja que, por meio do evangelho, pudesse transcender a distância entre os povos, tornando ambos em só povo, o povo redimido. Este gap, portanto, tornou-se cada vez mais, uma barreira na integração das raças, pois mesmo em igrejas da mesma raça, pessoas com níveis sociais e financeiros diferentes encontram mais dificuldade em desenvolver amizades por causa dos custo financeiro envolvido nos programas e as oportunidades diferentes que cada grupo apresenta.

 

D.   Gap Cultural – Acima de tudo, porém, estava o Gap cultural. Como afirmou Clyde Kluckhohn, “A cultura é um modo de pensar, de sentir e crer”. Acrescenta ainda “A cultura é um plano de vida. Um plano segundo o qual a sociedade se adapta ao seu ambiente físico, social e conceitual”[4]

 

Clyde Kluckhohn[5], afirma que cultura possui alguns elementos:

1. o modo de vida global de um povo;
2. o legado social que o indivíduo adquire do seu grupo;
3. a forma de pensar, sentir e acreditar;
4. uma abstração do comportamento;
5. uma teoria, elaborada pelo antropólogo, sobre a forma pela qual um grupo de pessoas se comporta realmente;
6. um celeiro de aprendizagem em comum;
7. um conjunto de orientações padronizadas para os problemas recorrentes;
8. comportamento aprendido;
9. um mecanismo para a regulamentação normativa do comportamento;
10. um conjunto de técnicas para se ajustar tanto ao ambiente externo como em relação aos outros homens;
11. um precipitado da história;

Criamos almoços comunitários, e programas coletivos, mas tanto brasileiro quanto o americano não estavam muito dispostos a se envolver. Se sentiam mais a vontade com seu grupo que pensava a mesma coisa e tinha o mesmo cardápio à mesa. Naturalmente esforços foram feitos de forma mais esporádica e individual, mas ainda assim, a interculturalidade não era experimentada na sua plena dimensão. A velha narrativa ainda estava presente: “multiplicando-se o número dos discípulos, houve murmuração dos helenistas contra os hebreus” (At 6.1). A suspeição estava presente, e isto desembocaria anos mais tarde numa ruptura cheia de controvérsias e acusações, principalmente entre os pastores. O sonho virou pesadelo. A etnicidade prevaleceu para vergonha do evangelho.

 

Idioma e cultura

Na verdade, o idioma é apenas um aspecto da cultura. O índio ao ser indagado pelo missionário se quer se converter e se tornar cristão, pode estar dizendo sim, para não desagradar o pregador, mas não estar ainda entendendo todas as implicações do cristianismo, por mais claro e direto que o mensageiro procure ser quanto ao discipulado cristão.

 

Hesselgrave afirma que o missionário pode viajar milhares de quilômetros para se encontrar com uma cultura distinta, mas a grande desafiadora viagem tem a ver com os quarenta centímetros que separam a mente do coração. Será que a mensagem foi realmente entendida? “precisamos estudar, não apenas o idioma, mas os ouvintes, conhecer a mensagem e o objeto da mensagem” (Hesselgrave)[6].

 

Martyn Lloyd Jones afirmou: “a verdade deve sempre ser aplicada. A compreensão genuína da verdade sempre conduz à aplicação. Portanto, se um pregador não aplica a verdade, seu real problema é que não a compreendeu”.

 

Segundo John R. W. Stott, o pregador deve “construir pontes” que atravessem o abismo das eras. Estas pontes devem unir o texto bíblico às pessoas que ouvem a pregação; “é por cima deste abismo amplo e profundo de dois mil anos de cultura (ainda mais no caso do Antigo Testamento) que os comunicadores cristãos precisam lançar pontes. Nossa tarefa é deixar a verdade revelada por Deus fluir das Escrituras para a vida de homens e mulheres de nossos dias." Muitos pregadores são ineficazes na pregação porque falham na sua aplicação. O pregador precisa saber fazer a ponte entre a Palavra de Deus e a realidade da vida das pessoas, por isto, “um sermão que começa na Bíblia e permanece na Bíblia, não é necessariamente bíblico” (Larsen).

 

Mas ainda assim, nos deparamos com a dificuldade da pregação multicultural.

 

Três aspectos precisam ser considerados:

 

1.     A cultura Bíblica

 

Isto tem a ver com o conhecimento Exegético. O que o autor bíblico queria dizer com aquilo que falou? Ao estudar a Bíblia, é importante reconhecer que existe uma grande barreira entre o sentido das palavras que foram usadas no original, com as palavras que usamos hoje na tradução. O grande desafio exegético é entender, o mais próximo possível, acerca da intenção original do autor. O que ele estava querendo afirmar? Esta era de fato sua ideia? A tradução não obscureceu o sentido original?

 

A exegese ajuda o intérprete a se aproximar do texto e extrair, o mais próximo possível, seu significado original. Isto demanda estudo, tempo e eventualmente, conhecimento das línguas originais. É essencial que o missionário seja alguém que maneja bem a palavra da verdade (1 Tm 2.15), pois só assim ele será aprovado. O missionário é simples mensageiro.

 

2.     A cultura do missionário

 

Na segunda etapa desta comunicação, temos a condição do próprio mensageiro, porque ele não se aproxima da Bíblia sem a influência de sua própria cultura. Bultmann afirmava que “nenhum intérprete se aproxima da Bíblia sem pressuposições”.

 

Apesar dele estar certo nesta afirmação, o resultado da exegese de Bultmann foi uma catástrofe. Ele passou a achar que o que interessava não era o que o texto dizia, mas sim o que o intérprete entendia. Então, a hermenêutica não teria quaisquer princípios, pois a base da interpretação depende do estudante da Bíblia, e não da verdade que contém na Bíblia. Quando a hermenêutica se faz a partir da compreensão do hermeneuta e não a partir da verdade textual, cada um poderá fazer a bíblia dizer o que acha que ela é, e não aquilo que, originalmente ela era.

 

Apesar do missionário ser um simples mensageiro, ele tem a barreira da sua própria cultura que pode incorporar elementos nada bíblicos à análise textual. Exemplos de colonialismo e legalismo sendo transmitido como verdades bíblicas são notórios nos relatos missionários. O missionário tem que lutar para não projetar o significado de sua cultura no processo exegético.

 

3.     A cultura do receptor

 

No processo da comunicação multicultural, temos ainda outra barreira a enfrentar: como o ouvinte ouve, recebe e interpreta a mensagem?

 

Esta é a cultura alvo, ou cultura respondente. O mensageiro tem a responsabilidade de entregar a a mensagem bíblica e fazê-lo de forma relevante, comunicando a homens fieis que possa transmitir a outros, a mensagem do evangelho (2 Tm 2.2).

 

A tríplice tarefa do missionário

Sua tarefa possui, portanto, três elementos: Primeiro, entender a cultura bíblica; Segundo, deixar a verdade confrontar a cultura do intérprete e trazer o evangelho na sua expressão mais pura quanto possível; terceiro, decodificar esta mensagem e entregá-la de forma relevante à cultura alvo.

 

Existe um abismo amplo e profundo entre a cultura, geografia e linguagem dos textos bíblicos produzidos há dois mil anos atrás e da sociedade moderna. Os pregadores se tornam eficientes quando fazem esta conexão entre os dois mundos. “A verdade deve sempre ser aplicada. A compreensão genuína da verdade sempre conduz à aplicação. Portanto, se um pregador não aplica a verdade, seu real problema é que não a compreendeu” (M. L. Jones).

 

Alguns exemplos podem nos ajudar a entender como este desafio é gigantesco:

 

A Bíblia afirma que João Batista comia gafanhotos e mel silvestres, e os guias judeus nos dias atuais afirmam que o “mel silvestre” nada mais seria que as deliciosas tâmaras que crescem no deserto da Judeia.

 

O texto de Ap 3.20 afirma: “Eis que estou à porta e bato, se alguém ouvir a minha voz, abrir a porta, entrarei, cearei com ele e ele comigo”. Na cultura do povo Zanaki, só o ladrão bate na porta, para ver se há alguém em casa e então entrar para roubar. Uma pessoa amiga, nunca bate na porta, mas chama a pessoa.

 

Os índios no Sul do México constroem suas casas com palhas e folhas, e os intérpretes quando foram traduzir a bíblia na língua deste povo, tiveram que usar outra linguagem para a tradução de Mt 12.40 que fala daqueles que “devoram a casa das viúvas”, pois eles pensavam que isto era algo literal.

 

A tarefa da comunicação não é fácil quando um ocidental tem como seu público alvo o asiático; ou quando o brasileiro tenta se comunicar com os ciganos, quilombolas e indígenas, com toda sua interpretação simbólica de mundo. Afinal, comunicação não é o que você diz, mas o que o outro entende.

 

Temos o risco de transmitir a cosmovisão do missionário confundindo-a com a mensagem do evangelho ou, assumir uma superioridade cultural que crie barreira entre o comunicador e o receptor.

 

André Souza[7], afirma que um dos princípios que devemos considerar é que o Evangelho inteligível supera as diferenças:

Comunicação significa tornar comum. Então, quando falamos de comunicação transcultural do Evangelho estamos falando em tornar comum (inteligível) o Evangelho para a cultura receptora. Mas temos mais um problema neste ponto: muitas vezes não conseguimos comunicar corretamente dentro da nossa própria cultura, imagine então em outra, onde todo o processo de socialização que recebi desde o meu nascimento agora não funcionam mais quando me deparo com o campo transcultural. Por exemplo, se digo a um esquimó: O sangue de Cristo lhe torna mais branco que a neve, logo devo perguntar: de qual branco estamos falando, já que, para eles, existem mais de dez tonalidades desta cor. Como apresentar Cristo para pessoas distintas, de faixas etárias diferente, de contextos urbano e rural diferentes. Como falar de Cristo, para um universitário urbano brasileiro? Falar de comunicação cultural ou transcultural não significa somente a compreensão de uma “gramática linguística”, mas também de uma “gramática cultural”. Ambas precisam ser compreendidas dentro do contexto em que estão para que a mensagem do Evangelho faça sentido. Em outras palavras precisamos conhecer bem o Evangelho e bem a cultura afim que obtenhamos sucesso na comunicação. Precisamos comunicar com sentido, porém não podemos em nenhuma hipótese negociar o Evangelho para que isso aconteça. O Evangelho deve desafiar, confrontar e transformar. Se qualquer um desses aspectos forem negados, precisamos urgentemente rever que Evangelho estamos anunciando.”

Por ser transcultural e atemporal, o evangelho consegue ultrapassar barreiras e ser apreendido por diferentes culturas, etnias e linguagem. Afinal, uma das maravilhosas visões.

 

 

 

 

 




 

 

 



[1] Hesselgrave, David J. – O papel da cultura na comunicação, in Perspectivas no movimento cristão mundial, Ralph D. Winter, org. São Paulo, Ed. Vida Nova, 2009, pg 401

[2] Idem, Op cit. pg 401

[3] Lima, Silas – Contextualização entre os indígenas, in Perspectivas no movimento cristão mundial, Ralph D. Winter, org. São Paulo, Ed. Vida Nova, 2009, pg 408

[4] Apud, Hesselgrave, ibidem, pg. 402

[6] Op. Citado, pg 401

[7] • André Souza, missiólogo e antropólogo, com experiência entre a etnia indígena WaiWai. http://ultimato.com.br/sites/paralelo10/2017/08/por-que-o-missionario-precisa-estudar-a-linguagem-cultural/

 


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