terça-feira, 18 de julho de 2017

Soli Deo Glori



Introdução: A situação da Igreja nos dias da Reforma era bem complicada. As pessoas centralizaram sua adoração, mas na glória, poder e riqueza da igreja enquanto instituição, e de seus cargos, que de Deus. A glória de Deus estava ofuscada, pelo narcisismo e vaidade de seus líderes. Na verdade, isto não difere muito de nossos dias. É muito fácil encontrarmos líderes endeusados, denominações que não dependem de Deus, mas apenas de seus programas. A Reforma adotou o lema de que uma igreja reformada, precisa sempre se reformar. Uma das áreas mais vitais da Reforma em nossos dias, tem sido a glória de Deus compartilhada entre homens empavonados, e Deus - A quem deve se dirigir toda a glória. 
Um dos lemas da Reforma foi “Glória só a Deus!”.
Veja como era complicada a situação da igreja nos dias da Reforma.
606 – Bonifácio III se declara “Bispo universal” – Papa
709 – Obrigatoriedade de beijar os pés do Papa
993 – Doutrina do poder temporal da Igreja
1076 – Canonização dos santos
1190  - Vendas de indulgência.
1316 – Instituição da reza da “Ave-Maria”
1864 – Condenação da separação Igreja/Estado
1870 – Dogma da infalibilidade Papal.
O que estes dogmas propunham? Glória a Igreja (instituição), aos santos e aos bispos. Os reformadores acreditavam que homens, hierarquia eclesiástica e santos, não eram dignos da gloria que exigiam. 

Tentando entender nossa vocação
Qual a missão da Igreja? “A igreja existe para glorificar a Deus”
                Sl 96.1-3: “Anunciai entre as nações a sua glória”
                Rm 11.36: “A Ele seja a glória eternamente, Amém!”
Qual é o fim principal do homem? “O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre”.
A.      A centralidade da adoração (Ex 20.1)
B.      O Shemah Hebraico (Dt 6.4-7)
C.      Todos nossos atos devem glorificar a Deus – (1 Co 10.31)

O Problema: Fonte contaminada pelo EGO. Nossos motivos podem estar contaminados.
É fácil as pessoas se esquecerem de Deus e se contentarem com glória pessoal

ð  Paulo e Barnabé em Listra – (AT 14.8-18)
ð  João se curvando diante de um anjo (Ap 22.9)

a.       As coisas mais sagradas podem ocultar motivos de auto promoção
b.      Narcisismo e Poder estão sempre presentes nas instituições.
c.       Orações podem se tornar carregadas de auto glorificação – (Mt 6.5; Lc 18.11)
d.      Jejuns podem se tornar mecanismo de opressão – Is 58.3
e.      Boas obras podem estar centradas no EU (Mt 6.2-4)

Aplicações:
1.       Estruturas denominacionais podem se tornar mais importantes que Deus
2.       Pessoas facilmente ocupam o lugar de Deus
3.       Cultos podem estar mais focados nos homens que em Deus
a.       Liturgia: Cânticos auto centrados
b.      Mensagem: Auto ajuda ou Cristo?
c.       Adoração pode estar centrada numa mentalidade consumista.
4.       Vaidade pessoal e auto suficiência são substituídos pela dependência.
5.       Justiça própria pode sublimar o sacrifício de Cristo.
6.       E se Deus não estivesse presente, ainda assim a igreja existiria?
7.       Precisamos rever motivos e intenções. Para Deus não é suficiente o que fazemos, mas porque fazemos o que fazemos.
8.       Aplausos dos céus ou aplausos dos homens?

Ecclesia Reformata, semper Reformanda. Secundo Verbum Dei



Introdução:
Um dos lemas da Reforma do Século XVI foi "Igreja Reformada, sempre reformando, de acordo com a Palavra de Deus". Portanto, o desafio da Reforma não se encerra num evento histórico há 500 anos atrás, mas precisa ser continuamente atualizado e avaliado.
Toda Reforma corre o risco de afetar os fundamentos. Não é muito difícil correr o risco de jogar fora a criança que estava na banheira, com a água suja. Toda reforma enfrenta críticas, graves discussões, e eventualmente, cismas e rupturas. Ter sabedoria nestas horas é fundamental. 
É isto que procuramos fazer neste estudo sobre este fundamental lema da historia: "Ecclesia Reformata, semper Reformanda. Secundo Verbum Dei".


I. A necessidade da Reforma Séc XVI
310 – Oração pelos mortos
375 – culto aos santos
431 – Culto à Virgem Maria
503 – doutrina do Purgatório
783 – Adoração imagens e relíquias
993 – Canonização dos Santos
1190 – Venda de indulgências
1316 – Instituição da reza da “Ave-Maria”

II. A necessidade de Reforma Séc XXI
a.       Igreja facilmente se transforma em monumento, ao invés de movimento.
b.      Igreja confunde histórico com revelado, temporal com eterno, acidente com essência.
c.       Igrejas tendem à burocratização e institucionalização e se tornam auto centradas.
d.      É próprio das organizações esquecerem sua missão.
e.      Os desafios mudam na história
f.        Culturas diferentes exigem abordagem diferentes
i.                     Missiologia: Desafios transculturais
ii.                   Gerações: Desafios históricos.
iii.                  O desafio apologético da Reforma x Desafios missiológicos.

III. O Fator Issacar. "Os filhos de Issacar conheciam o tempo e sabiam o que Israel deveria fazer".
(1 Cr 12.32).
a.       Conhecer a época: Relativismo, Pluralismo, Subjetivismo, Geração virtual
b.       Saber o que deve ser feito: Estratégias aplicadas

IV. Hora de avançar: Barreiras. Nm 32
a.       Adequação – “A terra é boa”
b.      Cansaço – Nm 32.9
c.       Comodismo – Nm 32.20-21
d.      Perda de Perspectiva – “Assim fizeram vossos pais” – Nm 32.8

VI. Reformas: Riscos
a.       Métodos e estratégias se tornarem mais importantes que o conteúdo.
b.      Mudanças para atender uma sociedade consumista, e não “secundo verbum Dei”.
c.       Negociar princípios e valores para se tornar relevante.

V. Desafios IPA – 2017
                a. De uma pequena igreja è Para uma igreja grande
                b. De uma mentalidade rural è Para uma realidade urbana
                c. De uma igreja de manutenção è Para uma igreja em expansão.
                d. De um ministério centralizado è Para um colegiado
                e. De uma figura pastoral è Para uma equipe
                f. De uma igreja ensimesmada è Para ser parceira na evangelização do mundo
                g. Da auto promoção è Para a glória de Deus.

Conclusão:
A.      “Jovens num mundo velho, ou velhos num mundo novo?”

B.      “Ao compasso dos tempos, mas ancorado na rocha” (Lema da MPC).

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Ira



Introdução:
A espiritualidade fala de sete pecados capitais. Não que os outros não sejam importantes, mas estes pecados funcionam como matizes, origens, fontes de onde surgem os outros pecados.
A Ira é descrita como um destes pecados.
Pergunte a si mesmo:
Þ      Sou pronto para irar?
Þ      Perco facilmente o controle e me altero?
Þ      Enumere três coisas que deixam você zangado?

Algumas considerações preliminares:
  1. Ira é o segundo pecado mais descrito na Bíblia. 515 vezes. Medo surge em primeiro lugar. É só abrirmos a Bíblia para logo observarmos a quantidade de pessoas com ira: Caim, Sara, Esaú, Raquel. As pessoas tem facilidade em ficarem iradas.
  2. Ira é enganosa. Ela surge porque criamos algumas justificativas que nos defendem:
i.                     “Tenho direito de estar irado” – Lembra de Caim e Jonas?
ii.                   Temos a impressão de que ela promoverá algo bom.
iii.                 Jn 4.11 – De onde Jonas conclui que ela é razoável?
iv.                 Assume disfarces: “Estou magoado, ferido, de mau humor, TPM, estou com fome, sono, cansado”.

  1. Ira: Pecado de superfície
i.                     Criança zangada: reação externa a uma frustração.
ii.                   A questão não é a ira, mas o que causa a ira? Óleo flutua.
iii.                 A ira aflora quando os ídolos são ameaçados, quando alguma coisa que amamos torna-se exposta. O que levou Jonas a se sentir ameaçado? Reputação (Jn 3.4)

Martinho Lutero: “Você nunca pecará, a não ser que um pecado esteja debaixo do meu pecado. Quando quebramos o primeiro mandamento, passamos a quebrar todos os demais. A idolatria é o pecado detrás do pecado.
Quais são os ídolos mais comuns:
ü  Ídolo da reputação – Minha imagem...  Que pensarão de mim??? Por esta razão vivemos nos comparando com outras pessoas e somos arrasados por criticas. Queremos popularidade, aplausos... eu temo o que os outros vão falar, e fico zangado quando o que dizem mexe com meu ídolo de pessoa boa, ou justa...
ü  Ídolo do controle – Situações e pessoas podem atrapalhar meus planos... como alguém tem a ousadia de atrapalhar a ordem e minha agenda? Se o carro quebra... se chove no dia que planejei ir à praia... ou se alguém me fecha no transito... eu exijo respeito...
ü  Ídolo do dinheiro – Este ídolo é importante porque ele alimenta outros ídolos. Uso o dinheiro para alimentar status e prazeres pessoais. Isto me deixa seguro.
ü  Natureza auto-idolatrada – Pensamos: “As pessoas devem me servir... minha mãe, meu pai, meu irmão” ... eu mereço mais consideração...
ü  Ídolo da saúde – como assim? Ficar doente? Deus não tem o direito... Mark Twain: “Nunca matei ninguém, mas às vezes leio o obituário com muito prazer”.
ü  Ídolo da aparência, da imagem – Tenho que estar magra (o). Dieta. Quem está no controle? Fico irado porque não tenho o corpo que desejo. Odeio as pessoas, a Deus, a mim mesmo. Tenho vontade de morrer... é razoável esta tua ira?

O que causa ira?
ü  Reputação – Jonas estava preocupado consigo mesmo.
ü  Crise com Deus – (Jonas): “é razoável esta tua ira?” (Jn 4.49)
ü  Narcisismo – Deus não fez o que Jonas queria.
ü  Desconforto – Deus destruiu a plantinha que lhe amenizava o calor.

Características da ira
ü  Agressiva
ü  Exigente
ü  Perfeccionista
ü  Rígida
ü  Legalista
ü  Inflexível
Raiva de si mesmo – Por não ter todo o bem, ser limitado
Raiva dos outros – Não dão o que acho merecedor
Raiva de Deus – Não me compreende.

Os efeitos da ira
ü  Fere a si mesmo – Frederick Buechner: “Dos sete pecados capitais, a ira talvez seja o mais divertido. O inconveniente é que você está devorando a si mesmo”.
ü  Material radiativo – (Hb 12.15): Contamina outros.
o    Pv 14.17 – “O que presto se ira, faz loucuras”
o    Pv 15.18 – “O homem iracundo suscita contendas”
o    Pv 19.19 – “Homem de grande ira, tem de sofrer o dano”.
ü  Nos afasta de deus – Ef 4.26-27

O Evangelho e a ira
ü  Entenda sua ira como pecado – Não é apenas emoção ou reação.
ü  Identifique seus ídolos – Desmascare: egocentrismo, narcisismo, controle e poder.
o    Pecado por detrás do pecado
ü  Não fecunde a sua ira – Considere o perdão
o    Ef 4.26-27 -  Você acha difícil perdoar? Considere não perdoar.
ü  Ira pode ser controlada
o    Agressivos ou assertivos?
o    Famílias iracundas – 1 Pe 1.18

“A ira é algo que eu faço. Não é emoção sem controle. Resultado de pensamentos que nutrimos. Não é o que fazem, mas o que faço”. 

terça-feira, 30 de maio de 2017

Crises e alternativas- Plantação de Igrejas na IPB

Crises e alternativas
Uma análise de Plantação de Igrejas na IPB
Estudo de caso
Rev Samuel Vieira


Introdução:
O Censo da Igreja Presbiteriana do Brasil (2008), foi publicado em parceria com o Ministério de Apoio com Informação e em colaboração com a Secretaria Executiva da IPB foi o primeiro levantamento denominacional protestante evangélico do Brasil, e, considerando a presença dos presbiterianos em solo brasileiro por mais de 150 anos, e com aproximadamente 750 mil membros, torna-se um documento interessante para  análise de crises e as alternativas sobre o grande desafio de plantar igrejas.
Como ponto de partida, podemos dizer que apesar de estarmos usando os números desta denominação, esperamos tirar algumas lições de forma mais global, já que as mesmas contingências podem ser aplicáveis também à realidade de outras igrejas no Brasil, e aponte novas oportunidades e estratégias para quem deseja estudar o assunto.
A pesquisa reuniu uma amostragem de 1.273 igrejas, e o questionário é composto por 36 perguntas de interesse real e 3 perguntas de identificação, que vão desde cadastro, formação das igrejas, rol de membros e freqüência a atividades. Apesar das variáveis que uma pesquisa como esta pode apresentar, é muito significativo trabalhar com os  dados para que uma reflexão mais madura possa ser realizada.

Gráfico 1:




Este gráfico nos ajuda a perceber como estão distribuídos os membros de igrejas em nossa nação. Como era de se esperar, o número de membros de igrejas pentecostais e neo-pentecostais atinge os 70%, com 26% de evangélicos históricos e 5% de outras evangélicas, que talvez seja uma referência a igrejas que são consideradas como seitas por alguns (Adventistas e Congregação Cristã do Brasil), e talvez cite até seitas que são classificadas em muitos meios midiáticos seculares como evangélicas (Mórmons e Testemunhas de Jeová).

Gráfico 2:





Também não apresenta surpresas, uma vez que a tendência de migração sempre foi da zona rural para a cidade. Estes números nos mostram:
·         Estes dados apontam para a necessidade de uma pastoral urbana adequada. Comblin indaga sobre este não falar acerca da missão urbana: “o que está por detrás do silencio teológico sobre a cidade?”. “A Igreja é chamada a assumir a sociedade urbana, não por oportunismo religioso, mas por vocação (...) Seu papel consiste em criar o povo de Deus a partir da cidade”. [1]

·         A necessidade de termos uma “Teologia da Cidade”: Outra questão pastoral pode ser aqui levantada: Como a cidade pode encarnar tanto assim o paganismo e se tornar tão oposta a Deus e ao seu conteúdo revelativo? Por que as cidades chegam a ser como são, fonte de hostilidade, luxúria e oposição a tudo o que é divino? Os profetas estão sempre condenando a impiedade e a idolatria das cidades, mas a igreja urbana hoje muitas vezes tem dificuldade de entender as teias e amarras que unem e dividem a polis.

·         Ray Bakke afirma que nosso problema é que temos vivido na cidade, com sociologia e ferramentas urbanas, mas com teologia rural, e, na sua opinião, precisamos de uma teologia tão grande quanto a nossa cidade, tão urbana quanto nossa sociologia e missiologia.

·         O desafio de se construir uma Teologia da Cidade. Apesar de mais de 90% das igrejas se encontrarem em zona urbana, há uma tendência de seguir uma estrutura rural, e por conseguinte, com dificuldades para interpretar os fenômenos e tendências modernas, aplicando o conteúdo do Evangelho com metodologia e instrumentais adequados. A sugestão de Linthicum é, portanto, mais que apropriada: "Tenha uma teologia tão grande quanto o tamanho da cidade e um ministério tal especifico como a próxima pessoa que você encontrar". [2]

A verdade é que, “hoje, como há seis mil anos, a civilização vai da cidade ao campo, e nunca o inverso”.[3] Apesar da relevância da cidade vemos um profundo descaso da igreja em relação às suas necessidades. Apenas recentemente, iniciou-se uma séria discussão sobre o papel da Igreja no contexto urbano. O resultado disto é que a cidade foi abandonada à sua própria sorte, as igrejas simplesmente não sabem o que fazer com as necessidades urbanas e ainda continuam reproduzindo o mesmo modelo pastoral da zona rural, revelando um profundo despreparo frente aos desafios que a cidade trazia à igreja.

Comblin questiona como a teologia pode permanecer indiferente diante desta realidade humana. “A ausência de uma pastoral firme frente à cidade, pode ser reflexo de ausência de pensamento… Podemos legitimamente nos perguntar se a anarquia atual da pastoral das grandes cidades não está unida a uma ausência da teologia da cidade, que se encontra implícita nas fontes da revelação e, entretanto, não teve a explicação necessária. A igreja da Europa Ocidental é rural em todas as suas estruturas fundamentais”... As paróquias urbanas não passam de paróquias rurais trasladadas à cidade[4]

Este gráfico nos desafia a pensar igrejas com categorias de urbanidade, e isto nem sempre é possível por causa da própria formação de nossos seminários que tende a perpetuar uma linha de pensamento menos dialética que esteve sempre presente nos contextos rurais que marcaram tanto a liturgia e a teologia da igreja durante muitas décadas.

Gráfico 3:

Neste gráfico entramos propriamente na discussão sobre plantação de igrejas.
Os números impressionam e geram certa inquietação. 45% das igrejas não têm congregação nem ponto de pregação, isto é, não possuem nenhum projeto a curto ou médio prazo para uma nova igreja. Outro número que chama a nossa atenção refere-se aos que deixaram de responder ao questionário. Tenho a tendência de achar que quem está fazendo um bom trabalho gosta de declarar que o faz, e não omitir, e isto me leva a perguntar. Será que os 18% que se omitiram na resposta, não o fizeram por não possuirem frentes missionárias? Isto elevaria o número para 63%, embora o próximo gráfico apresente uma pequena diferença, acredito que estatisticamente ela não faz tanta diferença.
Uma pergunta que pode ser levantada aqui é por que igrejas não estão plantando novas igrejas ou estão despreocupadas com esta tarefa? Uma igreja saudável tende a expandir-se, como todos organismos vivos o fazem. Igrejas plantam igrejas! Isto pode não estar acontecendo por causa de uma teologia equivocada ou deficiente, por miopia de visão ou talvez porque já tentaram e tiverem pífios resultados. Justifica-se naturalmente, as pequenas igrejas recém organizadas, que estão ainda dando seus primeiros passos e que não tiveram ainda condições de pensar na expansão de si mesmas, mas espera-se que este processo não seja longo demais. Uma congregação numa cidade estratégica do Nordeste do Brasil levou 76 anos para organizar-se.
Seja como for, é ainda desafiador imaginar uma igreja que não está avançando para criar novas frentes, já que se sabe que o custo de um ponto de pregação é quase inexistente, e os próprios leigos de uma comunidade, somando-se aos esforços de um pastor local serão capazes de realizar a tarefa.

Gráfico 4



Este quadro é sugestivo porque faz uma amostragem por décadas. Como podemos observar, poucas eram as igrejas que não tinham congregações, os números são quase iguais de 1931 a1990, mas nesta década, inexplicavelmente, o número deu um salto, saindo de 27% para 38%, um aumento de 11%. Os dados tornam-se ainda mais significativos entre 2000-2008, quando subiu para 53%, num aumento de 15%. Se considerarmos as últimas duas décadas, 26% de igrejas perderam a capacidade de olhar para outros campos e tentar estabelecer novas comunidades. Presbitérios e sínodos deveriam considerar com muita seriedade estes números e discutir os motivos detrás da inércia, tentando reverter estes números para patamares suportáveis, que seriam em torno de 25%.
Existem atualmente muitas igrejas sem uma proposta de evangelização ou abertura de novos campos. Se considerarmos que “Plantar igrejas é o método mais eficaz de evangelização”, como afirma Peter Wagner, nossa dimensão evangelística precisa ser reavaliada imediatamente.

Gráfico 5:



Este gráfico fala de igrejas que já puderam em sua história, ver uma de suas congregações se tornando independente em termos de liderança e finanças. Igrejas filhas são aquelas que já foram organizadas e tem vida própria. Considerando que 76% não possuem nenhuma filha, temos um problema sério de úteros estéreis, já que o número de novas igrejas avançou significativamente no contexto brasileiro, isto nos leva a dizer que apenas 24% das igrejas plantaram todas as demais. Indica ainda que se trata de uma questão de visão e teologia de missões. Algumas igrejas estão sendo biblicamente orientadas, enquanto outras se encontram descuidadas sobre este assunto e precisam envidar esforços para quebrar a lei da inércia que as tem imobilizado de forma tão negativa. Muitas igrejas ainda não tiveram o privilégio de ver outras igrejas se organizando por seu esforço missionário.

Gráfico 6:

  
Este quadro mostra de onde surgem os novos membros das igrejas.

28 % nascidos na IPB local – isto é, boa parte do crescimento é vegetativo. Pode parecer negativo, mas considero tais números importantes, porque lamentavelmente muitas igrejas não conseguem sequer manter o seu número de membros, e se conseguissem manter os filhos, o número de membros já seria bem superior ao que existe. Além do mais, uma das grandes bençãos que temos é perceber que os filhos estão permanecendo na igreja, isto mostra que a fé dos pais de alguma forma está sendo comunicado à próxima geração. Quando a fé deixa de ser comunicada de forma eficiente, os filhos perdem o interesse pelo evangelho e pela vida cristã e se afastam do caminho do Senhor. As duas maiores fontes de apostasia são: (a)- Liderança inescrupulosa e infiel; (b)- Pais cínicos e indiferentes. Filhos se apostatam da fé quando estes elementos estão presentes.

14% Outra religião – A mudança de membros de uma comunidade para outra não é muito rara, numa época em que existe muito pouca “fidelização” doutrinária e menos ainda, denominacional. Muda-se por razões teológicas, litúrgicas, pessoais, mas muda-se também por razões geográficas e por adaptabilidade. Na perspectiva do reino estas mudanças nada dizem, mas, na eclesiologia são eloqüentes. Na linguagem do Rev. Antonio Elias, “Ovelha vai para onde tem pastor melhor”

31% Outra religião – Aqui devemos concentrar todo nosso esforço missionário, e é para onde nossos olhos devem estar atentos. Afinal de contas, a grande missão da igreja é pregar com fidelidade a palavra para que aqueles que estão perdidos espiritualmente. “Livra os que estão sendo levados para a morte e salva os que cambaleiam indo para serem mortos. Se disseres: Não o soubemos, não o perceberá aquele que pesa os corações? Não o saberá aquele que atenta para a tua alma? E não pagará ele ao homem segundos as suas obras?” (Pv 24.11-12).
A igreja deve buscar alternativas bíblicas criativas para pregar o evangelho. O nosso alvo deve ser o de alcançar os não alcançados com a mensagem de libertação que o evangelho traz. A única instituição que não existe com uma finalidade de meramente satisfazer seus membros é a igreja. Todas entidades filantrópicas bastam a si mesmas, mas a igreja que não faz missão está perdendo a essência de sua identidade. Nossa missão é fazer missão.
Os outros números apenas refletem a realidade natural de pessoas que mudam de igrejas, de presbitérios, de regiões, etc., são muitos os fatores que provocam estas mudanças, entre eles a transferência de trabalho, mudança de jovens para estudar em outros lugares, casamentos e assim por diante.

Conclusão:
Números têm o poder de nos orientar, chocar e desafiar. Na medida que estudamos estes gráficos, surgem muitas questões e algumas alternativas:

  1. Por que Plantação de Igrejas tem sido tão negligenciada nos últimos 20 anos como apontam as estatísticas? Mudou o conteúdo da missão? Existem problemas nos fundamentos teológicos dos seminários? O que levou as igrejas a perderem seu vigor e agressividade evangelísticas?

  1. Que ênfases precisam ser dadas nos próximos anos para que esta curva de nível retorne a um patamar aceitável, ou pelo menos a números que durante tantos anos marcaram esta igreja?

  1. Estes dados são relativos apenas a Igreja presbiteriana ou se aplicam igualmente a outras igrejas históricas?

  1. Como Sínodos e autarquias das igrejas poderiam se mobilizar em educação teológica, pregação da palavra, aprofundamento bíblico para que a igreja desperte para o grande desafio de plantar novas igrejas?

Rev Samuel Vieira
Professor de Plantação de Igrejas
Seminário Presbiteriano Brasil Central- Goiânia - GO.





[1] Comblin, José – Teologia da Cidade. São Paulo, Paulinas, 1991, pg 19
[2] Linthicum, Robert – A transformação da cidade, pg. 137
[3] . Comblin, Jose – Teologia da Cidade, S. Paulo, Ed. Paulinas, 1991, pg. 11
[4]   Comblin, Jose –1991, pg. 14

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Lc 18.1-8 O Juiz Iníquo



Introdução:

Esta parábola aparece apenas no Evangelho de Lucas. A parábola do fariseu e publicano vem logo a seguir, e Jesus a contou com o objetivo direto, descrito por Lucas: “Disse-lhes Jesus uma parábola sobre o dever de orar sempre e nunca esmorecer” (Lc 18.1). O objetivo de Jesus, nas duas parábolas, era falar sobre oração.
Jesus usa o exemplo de uma viúva. A realidade social dos órfãos e viúvas era muito dura nos dias de Jesus. Os homens viviam muito pouco, na maioria das vezes. Para termos ideia da brevidade da vida, a média de idade do homem na Idade Média era de apenas 32 anos. Guerras, epidemias, ausência de antibióticos, cirurgias e remédios adequados eram fatais. Quando se tornavam viúvas, as mulheres ficavam desprotegidas, pois não tinham quem as pudesse sustentar. Basta olhar para a Igreja Primitiva e perceber que a primeira grande tensão que surge na comunidade apostólica, envolve a questão do socorro às viúvas (At 6.1-6), e por esta razão instituiu-se o oficio diaconal.
Em Israel havia leis especificas para as mulheres:
                Dt 10.18 – Deus se identifica como aquele que faz juiz ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e vestes.
                Dt 27.19 – “Maldito aquele que perverter o direito do estrangeiro, do órfao e da viúva”.
                Nm 30.19 – Uma viúva possuía o mesmo status de um homem diante de um tribunal, enquanto as mulheres casadas não eram ouvidas.
                Sl 68.5 – Não defender a viúva era “brigar com Deus”.
Jesus, portanto, usa a figura de uma classe social que ocupava o último degrau social. Ela não tinha dinheiro, e infelizmente cai nas mãos de um juiz que era iniquo, isto é, não possuía equidade, justiça. Este juiz é descrito na Bíblia como um homem sem princípios, valores e sem temor a Deus. “Bem que eu não temo a Deus, nem respeito a homem algum” (Lc 18.2,4).
A viúva era o lado vulnerável deste relacionamento. A quem recorrer? Vemos alguém em situação de impotência e abandono. Seu pedido era especifico: “julgue o meu caso”, embora a Bíblia não descreva qual era a situação que ele enfrentava.
Qual arma esta mulher possuía? Simplesmente a insistência e perseverança.
Jesus chama a atenção dos discípulos para o argumento do juiz. “Considerai no que diz este juiz iniquo”. A Palavra considerai dá ideia de prestar cuidadosa atenção. Não olhar com negligencia este aspecto.
Parábola dos contrastes
Nesta parábola Jesus tenta ensinar aos seus discípulos por contraste. Ele usa o simbólico do juiz iniquo, para contrastar com o Deus justo. “Não fará justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora parece demorado em defendê-los?” (Lc 18.7).
Alguns contrastes:
1.       Deus não é uma divindade inatingível - Se o juiz que não considera ninguém, atendeu o clamor desta mulher, quanto mais o Senhor que vê todas as coisas e julga com equidade?

2.       O juiz não tinha qualquer relacionamento com a mulher. Seja ele comunitário, social e religioso, no entanto, o Deus da Bíblia é o Deus das Alianças, que possui um relacionamento de afeto com os seus “escolhidos” (vs 7). Ele tem interesse especial no seu povo (Ml 3.13-18)

3.       O juiz ouve pelo motivo errado. “Ver-se livre da importunação” (vs 5). Deus ama e defende a causa do seu povo, porque habita um alto e sublime trono, mas também com o contrito e abatido de espírito.
Questões hermenêuticas
Este texto levanta algumas questões hermenêuticas?
A.      Devemos buscar a Deus por insistência, e ele nos dará mesmo quando não quer dar?

B.      A oração pode mudar o coração de Deus?

C.      Se a oração não pode mudar o coração de Deus, será que ela pode mudar as circunstâncias? O teólogo reformado, J.I. Packer defende esta tese. “A oração não muda Deus, mas muda os eventos”. Qual a dinâmica entre estas realidades?

D.      A oração é ouvida e atendida pela súplica do orante (o que ora), ou porque faz parte dos planos de Deus? Cremos no poder da oração ou no poder de Deus?


E.       Considere a expressão do A. W. Pink – “O Deus que destina os fins, também estabelece os meios”. Isto é, o propósito de Deus é imutável: “Porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Rm 11.29), mas para o estabelecimento dos seus planos, Deus conta com as orações do seu povo. Jacques Ellul defende que o quinto selo, que são as orações dos mártires de Apocalipse 6.9-11 é um dos agentes da história. A história é impulsionada pelo clamor do povo de Deus.