segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O Fator Diferencial em Plantação de igrejas.






Introdução:


Todos ansiamos por fórmulas, métodos e estratégias de plantação de igrejas. Toda minha formação acadêmica neste assunto, os livros que tenho lido, simpósios e conferências  dos quais tenho participado, de certa forma, apontam nesta direção. Muitas vezes estive em auditórios ouvindo histórias de sucesso de pessoas que foram tão efetivas na plantação de igrejas que eu julgava imprescindível ouvi-las atentamente.

Certa vez estive em Belo Horizonte, e ouvi falar de um plantador de igrejas que conseguiu a façanha de iniciar um projeto de plantação de igrejas e organizá-la,  tornando-a independente da igreja mãe, em apenas um ano. Não tive dúvidas. Descobri o telefone desta pessoa, marquei um almoço com ele e sua esposa, e fui almoçar com ele. Eu paguei o almoço dele porque tinha interesse em descobrir o que o fez tão efetivo. Geralmente trabalhamos com projetos que se arrastam indefinidamente por anos a fio e nunca conseguem avançar, tornando-se congregações cansadas e viciadas, trocando sucessivamente de pastores, projetos altamente dispendiosos e frustrante, que exaurem da igreja-mãe, toda possibilidade de iniciar novos projetos, porque os recursos são limitados.
Em Salvador-BA, ouvi falar de uma congregação que existia por 76 anos, sem nunca conseguir avançar. Em Anápolis-GO, a Igreja Central teve uma congregação que já existia por 21 anos, sem perspectiva de organização. É comum vermos projetos se arrastando num processo caro e sem vitalidade entre nós. Os números e recursos não refletem o investimento de um pastor, tempo integral, por 7 anos numa congregação de 20 membros, que não consegue batizar ninguém, nem atrair outros para a comunidade.

Ficamos com algumas perguntas:
O que está errado?
É possível descobrir novos caminhos?
Como ser efetivo na plantação de igrejas?

Devo confessar que ultimamente tenho refletido sobre estas questões e, para quem já foi tão empolgado com plantação de igrejas, me descubro algumas vezes, desanimado com esta dificuldade e ineficiência, com o dispêndio de tanto tempo e recursos, em projetos lentos e sem perspectiva. Apenas no Presbitério de Anápolis, quatro igrejas com recursos e vontade de formar novas congregações, fizeram o movimento inverso. Depois de tantos anos se arrastando, elas resolveram fechar seus projetos. Eles tinham campos missionários para expandir e criar novas igrejas, agora não possuem mais.

Considere como este ato de fechar uma congregação pode ser doloroso para a liderança de uma igreja, trazendo perguntas, dor e crise.
O que fizemos de errado?
Por que tanto investimento não redundou em igrejas dinâmicas e frutíferas? Não estamos agindo errado ao fechar este trabalho?

Uma situação preocupantes surge então: Existem mais igrejas querendo fechar pontos de pregação que abrir novas frentes. O custo operacional é muito alto, e a efetividade muito baixa.

Ao fazer esta análise, surge ainda outras crises:
Não estamos sendo pragmáticos e olhando as coisas como se igreja fosse uma franquia religiosa do tipo da universal, que se não produz, fecha?
Não estamos agindo de forma comercial e com pouca visão do reino quando pensamos assim?
Será que Deus deseja que fechemos uma congregação que está aberta por trinta anos, mas que não seguir adiante?
É correto demitir o obreiro que se encontra no campo?

Todas estas questões são difíceis, e nos deixa numa situação teológica e existencial bem desafiadora.

Em reuniões de Sínodos da Igreja, estatísticas sobre efetividade na plantação de igrejas não são consideradas. Primeiro, porque é muito subjetivo entender o que é fracasso em plantação de igrejas, depois porque as causas são “camufladas” e “não discutidas”.
Não há uma estatística transparente para se descobrir a efetividade dos campos, por uma razão muito simples: Ela é assustadora.

Nos idos de 1970, a Presbyterian Church of America (PCA-USA), percebeu que alguma coisa não estava certa no appoach sobre esta matéria. Allen Thompson, desenvolveu sua tese de D.Min na área de plantação de igrejas e assim surgiu o Assessment Center, ligado à Junta de Missão daquela denominação, para repensar o modelo. As estatísticas foram surpreendentes transformadas num tempo não muito longo. A efetividade na plantação de igrejas girava em torno de 45%, para depois se transformarem em 90%, isto é, algo em torno de 100% de melhora. A partir de então, com novos princípios colocados em prática, algo revolucionário surgiu naquela denominação.
Eles descobriram que instituições como Juntas e Presbitérios eram uma das razões da ineficiência dos projetos, e a partir de então, encorajaram parcerias entre as igrejas para levantamento e supervisão dos novos campos.
Segundo, resolveram pensar de forma mais intencional no plantador de igrejas. Eles viram que o segredo na plantação de novas igrejas estava no candidato e fizeram um projeto para investir neste elemento mais importante: O Obreiro.

O projeto consistia em três fases:

A.   Seleção – Era preciso descobrir pessoas motivadas e adequadas para os campos. Infelizmente no Brasil, um grande número de igrejas fazem o movimento inverso. Designam o pior candidato, para o pior campo, pagam o pior salário para terem a pior igreja.

No processo de seleção passaram a avaliar o candidato e sua história ministerial. Descobriram um princípio aplicado e testado: “A melhor maneira de se saber o que uma pessoa será, é observando quem ela foi”, isto é, o histórico do plantador era fundamental na seleção. Quais eram seus dons? Ele demonstrava competência em crescimento de igreja? Sua família estava envolvido com ele no projeto? Na busca de pessoas já experimentadas, eles recusavam, por exemplo, investir em seminaristas para plantação de igrejas, afirmando que durante sua formação acadêmica, não seria possível saber quais dons ela realmente possuía.

B.    Recrutamento – Esta fase está muito relacionada à primeira, mas difere no fato de que eles começaram a provocar pessoas com histórico de bons pastorados, para assumirem um novo campo.

Neste processo, eventualmente era necessário oferecer um pacote salarial compatível entendendo que, era melhor investir uma maior quantidade de dinheiro no início do projeto, do que continuar levantando recursos por muito tempo. Obreiros qualificados seriam difíceis de sair de suas igrejas, então eles precisavam ser desafiados a sonharem com um novo ministério, numa outra cidade ou região.

C.    Treinamento – Mesmo um pastor com experiência, precisa ouvir e participar de workshops e conferências que poderão incrementar e dar mais efetividade ao trabalho.

Todo pacote salarial coordenado pela PCA, contempla um certo valor para que o obreiro e sua esposa (este detalhe é importante), participe de pelo menos um treinamento anual. Como tudo já está pago e aquele dinheiro só será investido na sua vida se ele for ao congresso, isto se torna um fator altamente motivacional. Sua passagem, hospedagem do hotel, conferência, tudo será pago, desde que ele se inscreva. Se ele não se inscrever ele não poderá receber este dinheiro.

O Fator Diferencial

De tudo o que consideramos, o fator humano, é, sem dúvida, o melhor e mais eficaz ingrediente na plantação de igrejas. Afinal, “tudo se levanta e cai em liderança”, como afirma John Maxwell. O melhor dinheiro será investido num candidato bem preparado.

Apesar de estar convencido de que, certamente o elemento humano é o mais importante ingrediente, gostaria de falar sobre aquilo que tenho entendido como fator surpresa.
Estou convencido de que, mesmo quando um candidato é bem preparado, tem seus dons adequados, possui experiência, e um pacote adequado de benefícios, ele ainda corre o risco de não estar empolgado, quando o campo para o qual ele se dirige, não enche o seu coração de expectativa.

Então, o fator surpresa é:
O Candidato precisa descobrir qual o campo ele se sente chamado, e só então, pessoas e igrejas deveriam investir. A iniciativa deve ser do obreiro, não da igreja.

Isto contraria a fórmula atualmente empregada.
Em geral, o conselho de uma igreja, ou o ministério de missões, presbitério ou igreja, aponta qual é o campo onde o trabalho deve ser iniciado, e envia o candidato para lá. O problema, aquele campo não encheu o coração do obreiro. Ele não nasceu como algo dele mesmo, mas foi algo designado para ele.
Estou convencido de que, o candidato precisa saber onde ele se sente chamado, e se dirigir para onde o seu coração o convida.
Não é assim com projetos missionários?
Quem define para onde um missionário deve ir?
A Igreja ou o candidato?
Não creio que isto seja difícil imaginar, pois é exatamente este modelo que tem sido adotado por igrejas na Coreia do Sul e nos EUA. As igrejas são plantadas nesta perspectiva. Quem define o campo é o obreiro, e então, ele apresenta o projeto que está queimando no seu coração e começa a preparar as condições para se estabelecer naquele campo. Quem levanta os recursos, na maioria das vezes, como acontece na realidade dos missionários, é o próprio obreiro. Ele precisa convencer as pessoas a investirem no seu projeto, ele precisa buscar parcerias, que devem ser supervisionadas, orientadas, e apoiadas pelas juntas e comissões que podem até indicar onde os recursos podem ser encontrados. Mas o obreiro está apaixonado e diretamente envolvido no processo.

Em geral o que fazemos?
O conselho, ou o sênior pastor, diz ao obreiro onde ele deve ir. Isto equivale a criar um filho na barriga de outra pessoa. O projeto é da igreja, não é do obreiro. Ele recebe os recursos, porque precisa deles, e vai para o campo, mas não está encharcado por uma visão pessoal, e por isto as coisas não acontecem.

Um exemplo pessoal
Em 2008, comecei a sonhar na plantação de uma nova igreja na região mais rica de Anápolis-GO. Eu estava convencido de que precisávamos plantar uma igreja naquele lugar, então, escrevi o projeto, apresentei-o ao conselho, e sem sair da igreja onde eu sou o pastor efetivo, decidi que ao invés de convidar um plantador de igrejas, eu mesmo me envolveria neste projeto e plantaria aquela igreja. O processo foi pesado, eu pregava as 18 hs na congregação e corria para pregar as 19.30 hs na sede. Quando chegava na Igreja Central, o culto muitas vezes já estava em andamento, os diáconos pegavam meu carro na porta da igreja e o estacionavam para mim.
Esta dinâmica se mostrou cansativa e pesada, desenvolvi uma labirintite neste tempo, e comecei a demonstrar um cansaço mais forte no final desta fase, que durou dois anos e meio, mas a igreja se organizou neste curto espaço de tempo e pudemos convidar um pastor para assumir o campo.
Minha logica era simples:
Até encontrar o candidato, providenciar sua mudança, levantar os recursos e ele entender o que é a cidade de Anápolis, reunir um grupo em torno dele e criar um grupo base, certamente levaria cinco anos. Eu já tinha tudo isto agregado ao meu ministério, por ser conhecido na cidade e algumas pessoas decidiram seguir a minha liderança. Deus me abençoou com algumas pessoas maduras que me acompanharam, e a igreja pode ser então estabelecida.

Quem estava apaixonado por aquele projeto? Eu mesmo.
O meu conselho, me apoiou durante todo este tempo, mas raramente um dos presbíteros saia da sede para ver como estava o trabalho e se havia alguma necessidade. Quando eu pedia alguma coisa, entretanto, eles prontamente atendiam, mas o sonho era meu, o projeto era meu, e isto me deu um senso de “pertencimento” e responsabilidade muito grande pelo projeto. Eu entendi em oração, reflexão, estruturação do trabalho, que Deus queria isto, e eu mesmo decidi que assumiria o trabalho, dividindo meu tempo com a igreja mãe. 
Se eu convidasse alguém, o sonho continuaria sendo meu, não dele. Ele teria que fazer adaptações com o campo, ele teria que reunir pessoas em torno de sua liderança. Mas acima de tudo, ele não havia pensado e orado por aquilo tudo. Eu era a pessoa que estava sonhando por aquilo. Ele não escreveu o projeto. Eu fiz. Ele não estava imbuído de um senso de chamado e direção.

Muitos anos atrás o Rev. Eduardo Rosa Pedreira afirmou que “A mística precede a missão”, não sei se a frase é dele, mas eu a subscrevo enfaticamente.

Todo projeto precisa de mística. Esta coisa que caminha em torno da espiritualidade e da subjetividade. O plantador de igreja precisa entender o que Deus quer dele. Isto é vocação e chamado!

Quando a “mística” está presente, a pessoa decido investir sua vida nele. Particularmente gostaria de que os recursos do conselho missionário da igreja na qual pastoreio, pudessem ser aplicados em projetos assim. Quando a pessoa encontra-se orando, planejando, pensando no projeto, reunindo pessoas sobre sua liderança, apaixonado pela cidade (ou bairro), ele é capaz de ir atrás de parceiros, e encorajar seu pequeno grupo, a assumir os riscos e desafios com ele. Ele está motivado. Ele se sente chamado. Seu coração está pegando fogo, sua alma pulsa, ele tem sonhos. Ele não depende tanto do que lhe darão, porque ele acredita que os recursos virão, e que o dono dos recursos, aquele que é dono do ouro e da prata, dará a provisão necessária.

Outros modelos
Na Coreia do Sul, um plantador de igrejas não entra num projeto para sair daqui a 5 anos. Ele planta uma igreja para ser pastor dela pelo resto de sua vida. Ele não vai iniciar um projeto para outro assumir, aquela é sua igreja. O mesmo se dá nos EUA, ele inicia o projeto no qual pretende ficar pelo resto de suas vidas. Aquela é sua igreja. Ele sonhou, ele gerou, ele buscou recursos. Sua intensidade e motivação são completamente diferentes dos pastores que vão para o campo pensando: Se surgir uma nova oportunidade, saio daqui. Ele não é o idealizador, ele não planejou isto, ele sequer orou de forma intenção por isto, ele não tem alegria naquilo – a não ser no fato de que se aceitar a proposta resolverá o problema  do seu desemprego e receberá um salário para sua sobrevivência.

Falta mística nos projetos de plantação de igrejas.

O grande segredo então é:
Este projeto nasceu no meu coração?
Deus implantou tal visão em minha vida?
Estou apaixonado por este trabalho?
Já tenho em mente as pessoas com quem posso contar?
Tenho ideias e estou disposto a buscar os recursos para a implantação deste projeto?
Este campo é o lugar no qual quero que minha família cresça e se estabeleça?
Esta é uma cidade na qual gosto de viver?
Esta é realmente a minha paróquia?

Se a mística estiver presente, a efetividade será muito maior e prazerosa.
O plantador de igrejas precisa estar sonhando em plantar a igreja.
Este, para mim, é “O Fator Diferencial em Plantação de igrejas”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário